Archive for Janeiro 2014

BRASIL, 20 DE JANEIRO DE 1567

Batalha de Uruçumirim, envolvendo 12 mil combatentes indígenas e europeus na região do Rio de Janeiro.

Estácio de Sá, fundador da cidade foi ferido com uma flecha no olho, vindo a morrer um mês depois.

Aimbere e outros líderes indígenas tiveram suas cabeças expostas em estacas pela cidade.

A guerra abria caminho para a escravização dos povos indígenas da região.

01 20

BRASIL, 19 DE JANEIRO

1897 – A Expedição Febrônio de Brito, segunda a tentar destruir o arraial de Canudos, foi derrotada quando acampava na Lagoa do Cipó.

Sem o abrigo das serras e rochedos, sertanejos e militares muitas vezes lutavam corpo-a-corpo, no terrível confronto dos punhais.

No final do combate, inúmeros corpos restavam estendidos no chão. A lagoa tinha mudado de cor e de nome, desde então passou a se chamar Lagoa do Sangue. A expedição não teve mais condições de prosseguir no seu objetivo, que era atacar e arrasar Canudos.

01 19

BRASIL, 18 DE JANEIRO DE 1926

Tentativa de levante em Aracaju, em apoio à Coluna Prestes. Após sublevarem e tomarem a cadeia, presos políticos e seus aliados organizaram a ocupação de pontos estratégicos da cidade e o cerco ao quartel da Polícia Militar, chegando a atacar o palácio do governador do Estado. A tropa policial contra-atacou rapidamente e dominou a situação depois de quatro horas de intensos combates. Os rebeldes só foram derrotados com o recurso a tropas da Marinha.

01 18

BRASIL, 17 DE JANEIRO DE 1976

Manuel Fiel Filho é assassinado sob tortura por agentes do DOI-CODI três meses após o assassinato do jornalista Vladimir Herzog. O operário havia sido preso no dia anterior, acusado de ter recebido exemplares de um jornal de orientação comunista.

Foi nomeado para o Inquérito Policial-Militar o coronel Murilo Alexander, responsável por dissimular mortes sob tortura e autor de diversos atentados terroristas em 1968. Concluiu-se, contra todas as evidências, que o operário cometeu suicídio, enforcando-se com suas meias. A farsa, porém, era tão evidente que o ditador Ernesto Geisel foi levado a demitir o comandante do II Exército, abrindo uma crise interna no regime. A esposa nunca teve dúvidas do assassinato, desde a noite de 17 de janeiro, quando um desconhecido foi à sua casa, jogou um saco de lixo azul em sua direção e falou secamente “O Manuel suicidou-se, aqui estão suas roupas”. Tereza respondeu aos gritos “Vocês o mataram! Vocês o mataram!” Os médicos legistas responsáveis pelo laudo de auto-enforcamento, foram José Antonio de Mello e José Henrique da Fonseca. Seu corpo apresentava claros sinais de tortura e só foi entregue aos familiares mediante compromisso de realizar rapidamente seu enterro.

01 17

BRASIL, 16 DE JANEIRO DE 1993

Prisão, tortura e assassinato de Mário Alves, que anos depois tornou-se o primeiro desaparecido político reconhecido pelo Estado brasileiro. A viúva, que sempre lutou por justiça, escreveu à esposa de um embaixador seqüestrado:

“Todos conhecem seu sofrimento, sua angústia. A imprensa falada e escrita focaliza diariamente o seu drama. Mas do meu sofrimento, da minha angústia, ninguém fala. Choro sozinha. Não tenho os seus recursos para me fazer ouvir, para dizer também que tenho o coração partido, que quero meu marido de volta. O seu marido está vivo, bem tratado, vai voltar. O meu foi trucidado, morto sob tortura, pelo 1° Exército, foi executado sem processo, sem julgamento. Reclamo seu corpo. Nem a Comissão de Direitos da Pessoa Humana me atendeu. Não sei o que fizeram dele, onde o jogaram. Ele era Mário Alves de Souza Vieira, jornalista. Foi preso no dia 16 de janeiro do corrente, na Guanabara, pela polícia do 1° Exército e levado para o quartel da PE, sendo espancado barbaramente de noite, empalado com um cassetete dentado, o corpo todo esfolado por escova de arame, por se recusar a prestar informações exigidas pelos torturadores do 1° Exército e do DOPS. Alguns presos, levados à sala de torturas para limpar o chão sujo de sangue e de fezes, viram meu marido moribundo, sangrando pela boca e pelo nariz, nu, jogado no chão, arquejante, pedindo água, e os militares torturadores em volta, rindo, não permitindo que lhe fosse prestado nenhum socorro. Sei que a Sra. não tem condições de avaliar meu sofrimento, porque a dor de cada um é sempre maior que a dos outros. Mas espero que compreenda que as condições que levaram meu marido a ser torturado até a morte e o seu seqüestrado são as mesmas; que é importante saber que a violência- fome, violência-miséria, violência-opressão, violência-atraso, violência-terrorismo, violência-guerrilha; que é muito importante saber quem pratica a violência – os que criam a miséria ou os que lutam contra ela”.

01 16

BRASIL, 15 DE JANEIRO DE 1993

Assassinato de Edméia Euzébio, uma das “Mães de Acari”, ao sair de um presídio, onde fazia investigações por conta própria para obter informações sobre a chacina que vitimou seu filho e outras 10 pessoas. Todas as mortes seguem impunes e no caso da chacina o crime prescreveu.

Os corpos nunca foram encontrados. Os policiais faziam parte do grupo de extermínio “Cavalos Corredores”, envolvidos também na chacina de 21 pessoas na favela de Vigário Geral em agosto do mesmo ano. Segundo a única testemunha, os responsáveis pela chacina se identificaram como policiais.“Não tem corpo não tem crime” é a resposta que as Mães de Acari ouviram ao longo de vinte anos das autoridades policiais responsáveis pelo caso.

01 15

BRASIL, 14 DE JANEIRO DE 1938

Ataque final ao Caldeirão Pau de Colher, na fronteira entre o Piauí e a Bahia. Desde o ano anterior, a ditadura de Vargas havia declarado guerra às famílias estabelecidas numa comunidade rural que resistiu, mesmo sem armas de fogo, até a destruição. Foram 217 mortes confirmadas, mas suspeita-se que o número chegue a 400.

Relatos de sobreviventes e dos que acompanharam a repressão apontam para execuções e torturas, bem como para o rapto de crianças sobreviventes para serem entregues a famílias abastadas da Bahia, tornando-se criadas domésticas.

“Isso foi tudo escondido, gente! Ninguém sabe disso. Tenho fé em Deus que essa história vai ficar conhecida.” Gregório Manoel Rodrigues, agricultor que guarda a memória da guerra

01 14

BRASIL, 13 DE JANEIRO

1825 – Executado em Recife o religioso Joaquim do Amor Divino Rabelo, conhecido como Frei Caneca. De formação carmelita, ele foi professor de Geometria e Retórica e escreveu uma gramática da língua portuguesa na prisão (1817-1821).

Líder revolucionário em 1817 e na Confederação do Equador (1824), lutou por uma ordem constitucional fundada na soberania popular.

Sua pena era de enforcamento, porém três carrascos se recusaram sucessivamente a executar a sentença. Acabou por ser morto por um pelotão de fuzilamento, «visto não poder ser enforcado pela desobediência dos carrascos».

01 13

HAITI, 12 DE JANEIRO DE 2010

Um terremoto atinge o país sob ocupação militar liderada pelo Brasil desde 2004. Mais de 300 mil pessoas morreram na catástrofe. A ocupação, com a participação de 13 mil soldados brasileiros e gastos de um bilhão de reais, não contribuiu para diminuir a tragédia humanitária. Além do papel de garantir interesses das potências, o Estado brasileiro faz ações experimentais de contra-insurreição em favelas. Segundo um comandante, “um dos principais ganhos de nossas tropas é o treinamento para atuar em solo brasileiro. O Haiti está sendo para nós um laboratório.’” Lá e cá, as mesmas violações – torturas, execuções, estupros, quase sempre impunes. Dentre os mortos, estava Zilda Arns, irmã de Dom Paulo Evaristo Arns e fundadora da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa.

“Andando pela cidade – Ontem e hoje pude sair pela cidade de Port-au-Prince. O que eu vi foi uma população abandonada tentando se virar na medida do possível. […] Não vi nenhum carro da MINUSTAH nem ajuda internacional. […] Porque os 1300 soldados brasileiros não saíram na rua pra ajudar a população até agora? 48 horas depois do desastre eu fico com a impressão de que a MINUSTAH só está preocupada com o pessoal da ONU, e nunca esteve no Haiti para ajudar o povo haitiano.” Daniel F. Q. Santos, pesquisador da Unicamp.

01 12

BRASIL, 11 DE JANEIRO DE 2006

A Revista Veja, propriedade da família Civita e do grupo Naspers, ligado ao Apartheid na África do Sul, veicula a reportagem “A solução é derrubar”. Nela, defende abertamente o higienismo social no centro de São Paulo e faz ataques pessoais ao padre Júlio Lancelotti, da Pastoral da Rua. Legitimava-se de antemão a ação violenta e arbitrária na cracolândia e arredores naquele ano. Trata-se apenas de um caso, numa extensa série de violências cometidas pela revista.

Para ficar em alguns casos emblemáticos, desde então Veja atacou os povos indígenas, falsificando declarações de um antropólogo e incluindo subtítulos racistas como “os novos canibais” e “macumbeiros de cocar”; já incitou o ódio ao eleitorado pobre e nordestino nas eleições de 2010; já atacou as comunidades acadêmicas da UnB e da USP, bem como manteve sua antiga cruzada de ódio contra os movimentos sociais. Ocorre que cada um desses discursos foi acompanhado pela violência física. Há tanto sangue nas mãos dos Civita quanto nas daqueles que executam suas sentenças de ódio, matando e ferindo moradores de rua, indígenas, nordestinos e manifestantes do movimento estudantil e dos diversos movimentos sociais. E não é pouco sangue.

01 11

BRASIL, 10 DE JANEIRO DE 2008

Uma operação policial na favela do Jacarezinho, Rio de Janeiro, provocou a morte de 6 pessoas, incluindo Wesley Damião da Silva Saturnino Barreto, de apenas três anos (foto), atingido por três tiros.

Esta ação policial contou com cerca de 60 policiais do Bope, 3º BPM e 22º BPM, e foi dirigida pessoalmente pelo comandante do 3º BPM, Ten. Cel. Marcos Alexandre Santos de Almeida. Os policiais apreenderam motos (muitas legais, de moradores da comunidade), arrombaram casas, ameaçaram e ofenderam as pessoas, feriram muitas (a maioria não quis denunciar por medo), espancaram outras e executaram jovens, segundo moradores com requintes de tortura. Dentre os que foram mortos, um jovem chamado Zacarias, foi obrigado pelos policiais a beber duas garrafas de cloro antes de ser executado

01 10

BRASIL, 9 DE JANEIRO

1833 – Anunciado o ataque ao quilombo da Ilha dos Marinheiros, Rio Grande do Sul. A investida resultou na morte do líder, o Negro Lucas, e na prisão de alguns de seus companheiros.

1858 – Os principais jornais do Rio de Janeiro deixam de circular e dão lugar ao Jornal dos Tipógrafos, denunciando as condições de trabalho dos empregados do setor e anunciando uma greve, que provavelmente foi a primeira da história do Brasil.

01 09

BRASIL, 8 DE JANEIRO

1850 – Enforcado, em Queimado, Espírito Santo (foto), o escravo João, um dos líderes da insurreição do ano anterior, quando com seus companheiros exigiu a libertação do cativeiro. Chico Prego, também condenado, foi executado três dias depois. Dezenas de seus aliados foram açoitados, enquanto cinco conseguiram fugir da cadeia e dois se suicidaram.

1915 – Primeiro uso militar da aviação no Brasil. Durante a Guerra do Contestado, três aeroplanos foram utilizados em missões de reconhecimento e, a seguir, de bombardeio. Trouxemos o avião ao mundo. Em poucos anos colocamos, uma vez mais, a técnica a serviço da morte, contra os camponeses da fronteira entre Paraná e Santa Catarina.

01 08

BRASIL, 7 DE JANEIRO

1619 – Os Tupinambás atacam o Forte do Presépio (atual Forte do Castelo), em Belém. Resistiam à escravização, tentando expulsar os colonizadores. Naquele ano, os indígenas que viviam entre Tapuitapera, no Maranhão, e a foz do Amazonas, foram completamente dizimados.

1963 – Cinco trabalhadores de Ribeirão, Pernambuco, foram reivindicar o pagamento do 13º salário e nunca mais voltaram. Quatro eram da mesma família. Foram todos metralhados pelas costas, pelo usineiro José Lopes de Siqueira Santos e seus capangas, que acabaram absolvidos

1973 – Seis militantes da VPR são barbaramente mortos numa chácara no loteamento de São Bento, em Paulista, Pernambuco. Os torturadores, da equipe do delegado Fleury, crivaram os cadáveres de balas e jogaram granadas na casa para aparentar um tiroteio, quando na verdade os militantes haviam sido presos e torturados até a morte. A operação foi fruto do trabalho do informante infiltrado na VPR, cabo Anselmo.

01 07

BRASIL, 6 DE JANEIRO DE 1835

Belém é conquistada pelos cabanos. Formada majoritariamente por indígenas destribalizados (tapuios), a tropa rebelde matou o presidente da província e o comandante das armas e assumiu o governo. A Cabanagem envolveu diversos grupos sociais e conflitos vários, desde a disputa política provincial entre fazendeiros até a luta de tapuios e escravos por liberdade.

Foi a mais sangrenta guerra civil do Império, resultando em dezenas de milhares de mortos num período de cinco anos. Durante a repressão, violações de direitos e crimes contra a humanidade tomaram enormes proporções sob as ordens de Francisco José de Sousa Soares de Andrea, responsável por execuções sumárias, prisões arbitrárias e por mais de 2.500 brasileiros mortos no cárcere enquanto aguardavam julgamento.

01 06

PARAGUAI, 5 DE JANEIRO DE 1869

Ocupação de Asunción pelas tropas sob o comando do Duque de Caxias. Com a tomada da capital, já então devastada e despovoada, começava a última fase da Guerra do Paraguai: a caçada a Solano López pelo interior do país. Caxias, que abandonou o comando em seguida, era experiente na repressão interna.

Combateu agitações de rua na Corte (1831-32) e chefiou as guerras de “pacificação” contra a Farroupilha, a Balaiada e as Revoltas Liberais em Minas Gerais e São Paulo (1839-1845). No Paraguai, coroou sua carreira e seu lugar dentre os “heróis” nacionais numa das mais sangrentas guerras do século XIX, com centenas de milhares de mortos. Parlamentar e ministro sempre leal ao Partido Conservador, conseguiu manter e legar uma imagem de militar alheio à política, “pacificador” de províncias rebeldes, em parte graças à habilidade em dar tratamento criminal ou político aos conflitos, usando e abusando de dispositivos de exceção.

01 05

BRASIL, 4 DE JANEIRO DE 1985

Assassinado pela PM do Pará o gatilheiro Quintino da Silva Lira. O “matador de cabra safado”, liderou a resistência dos posseiros do Guamá contra milícias da companhia de mineração Cidapar que, com o apoio do governo Jader Barbalho, tentou expulsá-los com violência, tortura e morte. Sepultado às pressas pela polícia, seu corpo foi desenterrado pelos posseiros e seguiu em cortejo por diversos povoados, num percurso de 180km. Derrubado numa emboscada, Quintino ajudou a levar os camponeses a uma vitória: após 3 anos de luta armada, a Cidapar foi forçada a abandonar o projeto e a terra foi regularizada em favor dos posseiros. Apagando os rastros da vitória popular, o governo batizou as glebas desapropriadas de Cidapar.

“Por que Cidapar, se nós ganhamos a guerra?”, questiona um dos aliados do gatilheiro.

01 04

BRASIL, 3 DE JANEIRO DE 1825

Edital do Intendente Aragão estabelece novas normas para a ação policial no Rio de Janeiro, no primeiro ano iniciado sob uma Constituição liberal. As regras se justificavam por “interessar à segurança e sossego público, que os bons cidadãos brasileiros devem esperar à sombra das leis e escudados pela vigilância das autoridades”. Seus artigos incluíam a autorização do uso de “meios violentos” durante abordagens policiais; prêmios em dinheiro para policiais e delatores; toque de recolher; recomendação de que “ninguém [esteja] isento de ser apalpado, e corrido pelas patrulhas”, mas com orientação para que não “se adote para com as pessoas notoriamente conhecidas e de probidade”; e diversas medidas de racialização da repressão, oficializando o preconceito na ação policial, o que era contra os princípios da própria constituição.

01 03

BRASIL, 2 DE JANEIRO DE 1979

Preso o padre Francisco Jentel, que atuou junto aos índios e camponeses de Mato Grosso e do Pará. Depois de anos de cárcere, ele foi expulso do país.

01 02

 

 

BRASIL, 1º DE JANEIRO

1880 – Motim do Vintém, no Rio de Janeiro – primeiro movimento por transporte público no Brasil e um marco da participação política popular. Entre 1º e 4 de janeiro barricadas foram erguidas, bondes e trilhos destruídos por uma multidão de cerca de 5 mil pessoas. 600 soldados da infantaria e cavalaria foram mobilizados na repressão, 3 manifestantes morreram, dezenas ficaram feridos. Após os confrontos, o governo foi obrigado a reverter a criação de uma taxa sobre a passagem.

1955 – Criada no engenho Galiléia, em Vitória do Santo Antão, Pernambuco, a primeira das Ligas Camponesas, um dos grandes marcos da luta pela reforma agrária no Brasil.

 

01 01