Categoria: hino à rua

  • Eles também cantaram um dia: 10 canções, 10 revoluções

    Eu tenho certeza: eles também cantaram um dia!
    Chico Science

    Desde junho dezenas de músicas foram lembradas ou criadas por inspiração da experiência viva da tomada das ruas em todo o país. O Hino à Rua, feito pelo coletivo Baderna Midiática, é apenas uma dentre outras canções, como esta e esta. É claro que também surgiram produções puramente mercadológicas, sem qualquer relação com o movimento que tomou as ruas, ou ainda aquelas que, bancadas pela grande mídia, procuram arrancar das manifestações seu espírito contestador. Mas existe hoje, como existiu em todos os momentos como este, a resistência do movimento popular contra os que querem impor suas bandeiras, seus símbolos e suas canções.

    O que importa lembrar é que desde que há revoluções e insurreições populares as canções estão presentes a animar a luta. Uma mostra disso está na lista abaixo, na qual incluímos 10 músicas acompanhadas por uma breve apresentação e pela letra traduzida para o português. A seleção inclui apenas canções que são inseparáveis de momentos revolucionários ou insurrecionais, seja porque foram feitas em meio às batalhas, seja porque inspiraram os que lutaram. Começamos nosso percurso na Insurreição de Istambul, ocorrida pouco antes da tomada das ruas no Brasil, e o concluímos mais de 200 anos atrás. A lista poderia ser muito maior, pois ao que parece não há revolução que não se expresse musicalmente. 

    Tem outras sugestões para a lista? Deixe seu comentário!

    1. Tencere tava havasi (Insurreição de Istambul, 2013)

    Uma das belíssimas canções que surgiram dos protestos recentes em Istambul, Tencere tava havasi (“O som das panelas e frigideiras”) foi composta e gravada numa performance de rua pelo grupo Kardeş Türküler. Formado há 20 anos por músicos dos mais diversos grupos étnicos da Turquia (como curdos, árabes e armênios), o grupo sempre teve como objetivo a defesa da diversidade através da música. Em meio à dura repressão do primeiro semestre de 2013, ofereceram aos manifestantes de Istambul e ao mundo uma canção maravilhosa.

    Tencere tava havasi trata do movimento que teve início como resistência à derrubada de um parque para a construção de um shopping center. Além do ataque a um espaço frequentado pela juventude, o movimento reagia a uma série de leis arbitrárias que em parte estavam ligadas à “bancada islâmica” (a “bancada evangélica” deles), como é o caso da proibição de venda de bebida apos as 22h. Por isso a música diz que “eles venderam nossos bosques” e também critica “decretos e ordens obstinadas”. O refrão “Venha devagar, o chão está molhado” faz referência a uma das principais armas usadas pela repressão: os jatos de água lançados para derrubar as multidões.

    No vídeo, chama atenção também a referência aos pinguins. A razão disso é interessante. No dia em que as manifestações cresceram tanto que não dava mais para a mídia ignorá-las, diversas emissoras cancelaram os telejornais para não ter que mostrar que o país estava tomado por uma insurreição popular. Um deles, a CNN-Turquia decidiu colocou um documentário sobre a vida dos pinguins no lugar do telejornal. A atitude da midia virou piada e os manifestantes passaram a dizer que eles eram os pinguins, ou a resistência da Antártida.

    O som das panelas e frigideiras
    Chega de declarações inconsistentes e proibições
    Chega de decretos e ordens obstinadas
    Oh não, já tivemos o suficiente
    Oh não, nós realmente estamos fartos
    Quanta arrogância! Quanto ódio!
    Venha devagar, o chão está molhado

    Eles não podiam vender suas sombras
    Então ele venderam os bosques
    Eles derrubaram, fecharam cinemas e praças

    Abrigado em shopping centers
    Eu não me sinto como se atravessasse esta ponte
    O que aconteceu com nossa cidade?
    Está repleta de edifícios

    Oh, amada Istambul
    Deitada adoecida
    Sua beleza arruinada
    Quanta desgraça, quanto gás, que luto é este?
    Tudo está derrubado pelo chão
    O que aconteceu com você?
    Me diga, me diga!
    Não quero você deste jeito.
    Não, eu não quero

    Oh não, já tivemos o suficiente
    Oh não, nós realmente estamos fartos
    Quanta arrogância! Quanto ódio!
    Venha devagar, o chão está molhado

    2. Kelmti Horra (Insurreição Tunisina, 2011-2012)

    A canção Kelmti Horra (“Minha palavra é livre”) foi composta anos antes da insurreição que eclodiu na Tunísia nos últimos dias de 2011. Porém, foi em meio aos protestos que a música se tornou conhecida, principalmente através de um vídeo de Emel Mathlouthi cantando em meio aos manifestantes nas ruas de Túnis. Apesar de não ser a autora da canção, ela já a interpretava desde antes da insurreição. Cantora de protesto, Emel Mathlouthi teve suas músicas proibidas na Tunísia em 2008, quando resolveu se mudar para a França. Retornou a seu país em meio à revolta de 2011.

    A Insurreição Tunisina teve início em 17 de dezembro, quando o vendedor ambulante Mohamed Bouazizi ateou fogo ao próprio corpo, num ato de desespero após ter suas mercadorias confiscadas pelo governo. Humilhado pelas autoridades, ele ainda sofreu extorsão ao tentar reaver o que lhe foi tomado ilegalmente (pois não havia proibição do tipo de comércio que ele fazia). Emel Mathlouthi também dedicou uma música a Bouazizi, adaptada de uma canção em tributo a dois anarquistas executados nos Estados Unidos em 1927.

    Vivendo há muito sob um governo autoritário, a população reagiu após a autoimolação de Bouazizi, exigindo a queda do presidente Ben Ali, que foi forçado a deixar o poder e convocar eleições menos de um mês após o início dos protestos.

    Minha palavra é livre

    Eu sou daqueles que são livres e nunca temem
    Eu sou os segredos que nunca morrerão
    Eu sou a voz daqueles que não cederiam
    Eu sou o sentido em meio ao caos

    Eu sou o direito do oprimido
    Que é vendido por esses cachorros (pessoas que são cachorros)
    Que roubam as pessoas do seu pão de cada dia
    E batem com a porta na cara das idéias

    Eu sou aqueles que são livres e nunca temem
    Eu sou os segredos que nunca morrerão
    Eu sou a voz daqueles que não cederiam
    Eu sou livre e minha palavra é livre
    Eu sou livre e minha palavra é livre

    Não se esqueça do preço do pão
    E não se esqueça a causa da nossa miséria
    E não se esqueça de quem nos traiu no momento de necessidade

    Eu sou daqueles que são livres e nunca temem
    Eu sou os segredos que nunca morrerão
    Eu sou a voz daqueles que não cederiam
    Eu sou o segredo da rosa vermelha
    Daquela que colore os anos amados
    Que perfuma os rios enterrados
    E que se espalhou feito fogo
    Convocando os que são livres

    E sou uma estrela brilhando na escuridão
    Eu sou um espinho na garganta do opressor
    Eu sou um vento tocado pelo fogo
    Eu sou a alma daqueles que não estão esquecidos
    Eu sou a voz daqueles que não morreram

    Vamos fazer barro do aço
    E construir com ele um novo amor
    Que se torna passáros
    Que se torna um novo país/lar
    Que se torna vento e chuva

    Eu sou todas as pessoas livres do mundo juntas
    Eu sou como uma bala

    3. El pueblo unido, jamás será vencido (Luta popular e resistência ao golpe no Chile, 1973)

     “O povo unido jamais será vencido”: traduzido para os mais diversos idiomas, este é certamente um dos gritos mais presentes em manifestações no mundo todo. A frase, inspirada no discurso de um líder político colombiano, era um dos lemas da campanha da Unidade Popular no Chile, responsável por levar Salvador Allende ao poder e, com ele, a organização que vinha sendo construída há anos pelo povo chileno. A melodia é do compositor Sergio Ortega Alvarado, enquanto a letra é da banda Quilapayún – importante representante da Nueva Canción Chilena, ao lado de Victor Jara, dentre outros. O grupo também foi o primeiro a gravar a canção, num concerto ao vivo apenas três meses antes do golpe de estado que derrubou Allende.

    O vídeo acima foi gravado no momento de maior radicalização política da história do Chile, quando a organização popular se mostrava poderosa diante de seus inimigos internos e externos. O golpe dado por Augusto Pinochet com apoio aberto das potências capitalistas, especialmente os EUA, massacrou a organização do povo, os músicos da Nueva Canción e todos que estavam no caminho do imperialismo e das classes dominantes chilenas. De experiência democrática socialista, o Chile se tornou o laboratório do neoliberalismo sob um regime que está entre os mais brutais da história do continente.

    Mas a memória daquela experiência não se apagou nem durante nem após a ditadura de Pinochet, o que se percebe inclusive na presença da canção composta e rapidamente sufocada em 1973. É o mesmo grito que se ouviu quando um milhão de chilenos tomaram as ruas há poucos anos. O registro, feito por um brasileiro, é emocionante.

    O povo unido, jamais será vencido!

    De pé, cantar que vamos triunfar.
    Avançam já bandeiras de unidade.
    E você virá marchando junto a mim
    E assim verá seu canto e sua bandeira florescer,
    A luz de um vermelho amanhecer
    Já anuncia a vida que virá.

    De pé, lutar, o povo vai triunfar.
    Será melhor a vida que virá
    Conquistar nossa felicidade
    Em um clamor de mil vozes de combate se levantarão
    Dirão canção de liberdade
    Com decisão a pátria vencerá.

    E agora o povo que se levanta na luta
    Com voz de gigante gritando: Enfrente!
    O povo unido, jamais será vencido!
    O povo unido jamais será vencido!

    A pátria está forjando a unidade
    De norte a sul se mobilizará
    Desde a salina ardente e mineral
    Aos bosques do sul unidos na luta e trabalho
    Irão, a pátria cobrirão,
    Seu passo já anuncia o porvir.

    De pé, cantar o povo vai triunfar
    Milhões já, impõe a verdade
    De aço são ardente batalhão
    Suas mãos vão levando a justiça e a razão
    Mulher, com fogo e com coragem
    Já está aqui junto ao trabalhador.

    4. La Vie S’ecoule La Vie S’enfuit (Insurreição de Paris, 1968)

    Gravada pela primeira vez em 1974, com interpretação de Jacques Marchais, a música foi atribuída a um anarquista anônimo, suposto participante da greve que paralisou a região belga da Valônia em 1961. Mas na verdade a música foi composta por Raoul Vaneigem, um dos principais nomes do movimento situacionista. E mesmo se alguns situacionistas estiveram presentes na greve belga, entre eles o próprio Vaneigem, a composição deve ser mais justamente associada à insurreição parisiense de Maio de 68, na qual os situacionistas tiveram um papel importante.

    La Vie S’ecoule La Vie S’enfuit não foi a única canção a nascer de Maio de 68, tampouco a única escrita pelos situacionistas – poderíamos pensar, por exemplo, na canção do CMDO, o comitê de ocupação da Sorbonne. Mas a canção de Vaneigem exprime, talvez melhor que outras, o “rastro luminoso dos situacionistas” (Kurz) que formou o espírito dessa revolta. Nela encontramos a recusa de toda forma de representação política (partidos, dirigentes, Estado), a valorização da revolta como festa e, sobretudo, a crítica de um mundo no qual a nossa própria vida continua a nos escapar. Na oscilação entre um trabalho que não queremos e o consumo de mercadorias que não precisamos, a nossa “juventude morre de tempo perdido”.

    A vida se esvai, a vida escapa.

    A vida se esvai, a vida escapa
    Os dias desfilam ao passo do tédio
    Partido dos vermelhos, partido dos cinzas
    Nossas revoluções são traídas

    O trabalho mata, o trabalho paga
    O tempo se compra no supermercado
    O tempo pago não volta mais
    A juventude morre de tempo perdido

    Os olhos feitos para o amor de amar
    São o reflexo de um mundo de objetos
    Sem sonho e sem realidade
    Somos condenados às imagens

    Os fuzilados, os famintos
    Vem até nós do fundo do passado
    Nada mudou, mas tudo começa
    E vai amadurecer na violência

    Queimem, covis de padres
    Ninhos de mercadores, de policiais
    No vento que semeia a tempestade
    Colhem-se os dias de festa

    Os fuzis sobre nós dirigidos
    Contra os chefes vão se virar
    Sem mais dirigentes, sem mais Estado
    Para aproveitar de nossos combates

    5. Bella Ciao (Resistência ao fascismo na Itália, décadas de 1930-40)

    A heroica história da resistência ao fascismo na Itália deixou uma belíssima herança musical, a começar por Il Ribelli della Montagna, canção que inspirou nosso Hino à Rua. No caso de Bella Ciao, o canto ganhou o mundo, dos EUA à Palestina, passando pelas recentes manifestações de Istambul.

    A melodia já existia desde pelo menos o final do século XIX, sendo originalmente uma música cantada no trabalho de colheita nos campos da Itália. A letra, por sua vez, foi adaptada para a luta contra a Primeira Guerra Mundial e posteriormente apropriada pela luta antifascista dos anos 1930 e 1940, sendo esta versão a que se tornou mundialmente famosa. Trata-se de um canto que exalta a luta do partigiano – o guerrilheiro da resistência antifascista – e a justiça de sua causa.

    Linda adeus!

    Esta manhã, acordei
    Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
    Esta manhã, acordei
    E encontrei o invasor

    Oh guerrilheiro, me leve embora
    Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
    Oh guerrilheiro, me leve embora
    Pois sinto que vou morrer

    E se morro como guerrilheiro
    Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
    E se morro como guerrilheiro
    Você deve me enterrar

    Enterrar lá em cima, na montanha
    Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
    Enterrar lá em cima na montanha
    Embaixo da sombra de uma bela flor

    E as pessoas que passarão
    Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
    E as pessoas que passarão
    E dirão: que bela flor

    É esta a flor do guerrilheiro
    Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
    É esta a flor do guerrilheiro
    Morto pela liberdade

    6. A las barricadas (Resistência armada ao fascismo na Espanha, 1936-1939)

    A letra de A las barricadas foi publicada em 1933 na revista anarquista Tierra y Libertad. O texto foi escrito por Valeriano Orobón Fernández, sobre a ária da Varsoviana, canção entoada pelo movimento operário polonês no fim do século XIX, e apropriada mais tarde pelos revolucionários russos em 1905 e em 1917. Orobón Fernandez foi teórico e militante anarcossindicalista, e morreu durante a Guerra Civil Espanhola. Ele era um dentre os cerca de dois milhões de filiados da Confederação Nacional do Trabalho (CNT-AIT), a maior organização anarquista da Espanha.

    A revolução social espanhola foi amplamente libertária, a autogestão se impôs nas zonas urbanas e a coletivização nos campos – sobretudo nas regiões de maior presença dos sindicatos anarquistas, como a Catalunha. Mas as “negras tormentas agitavam os ares”, e o golpe militar de Franco lançou a Espanha numa sangrenta guerra civil. A las barricadas é um chamado ao combate contra o fascismo, e se tornou um hino da luta contra as tropas golpistas. O chamado foi, aliás, atendido por revolucionários de todo o mundo, reunidos nas Brigadas Internacionais. Mas, infelizmente, isso não foi o suficiente para superar o exército de Franco, que contou com o apoio das potências capitalistas, notadamente da Alemanha nazista e da Itália fascista. A derrota dos republicanos se deveu também às cisões internas na esquerda. A ascensão dos comunistas aliados a Moscou (e, portanto, a Stalin) se fez à custa do enfraquecimento das vertentes libertárias (como a CNT-AIT) e não alinhadas (como o POUM), debilitando fortemente o lado revolucionário.

    Às barricadas

    Negras tempestades agitam os ares
    nuvens escuras nos impedem de ver,
    ainda que nos espere a dor e a morte,
    contra o inimigo nos chama o dever.

    O bem mais precioso é a liberdade
    Há que defendê-la com fé e coragem
    Levanta a bandeira revolucionária
    Que do triunfo sem cessar nos leva a emancipação*

    Em pé povo obreiro à batalha!
    Há que derrotar a reação!
    Às barricadas! Às barricadas!
    Pelo triunfo da Confederação

    * Trecho adaptado a partir de outra versão da letra, dado que a original não tem correspondente em português

    7. La Cucaracha (Revolução Mexicana, 1910)

    http://www.youtube.com/watch?v=B_27Hi1In6o

    Nem todos sabem, mas La Cucaracha, música mundialmente famosa e apropriada para os fins mais diversos, é antes de tudo uma canção revolucionária. Mais precisamente, uma canção bem-humorada para uma revolução com aroma de marijuana. Não se sabe precisar sua origem, mas a melodia parece remeter ao cancioneiro medieval espanhol. Contudo, foi a partir da Revolução Mexicana, iniciada em 1910, que ela se tornou um grande sucesso.

    La Cucaracha não tem uma letra definida, intercalando-se o refrão e versos os mais variados, que se adaptam a temas e contextos e podem ser improvisados. O próprio nome, “a barata”, poderia ter sentidos diversos – era uma gíria para a maconha consumida massivamente no México, era o apelido do carro usado pelo revolucionário Francisco Villa, era um nome usado para definir a própria Revolução que, como uma barata em fuga, corria em direções imprevisíveis.

    No decorrer da Revolução, muitos versos foram feitos satirizando diversos personagens e situações. Incluímos um deles, que faz referência a Carranza, liderança revolucionária liberal contestada e combatida pelas armas por setores indígenas e populares; e a Francisco Villa (também conhecido como Pancho Villa), que ao lado de Emiliano Zapata foi o personagem mais famoso do lado popular da Revolução. Com bom humor, os rebeldes cantavam que usariam os fartos bigodes de Carranza para decorar o sombrero de Villa.

    A Barata

    [refrão]
    A barata, a barata
    Já não pode caminhar
    Porque não tem, porque lhe falta
    Marijuana pra fumar

    [um dos versos do contexto da Revolução]
    Com a barba de Carranza
    Eu vou fazer uma fita
    Pra colocá-la no chapéu
    Do senhor Francisco Villa

    8. La Semaine sanglante (Comuna de Paris, 1871)

    Jean-Baptiste Clément foi um dos insurretos da Comuna de Paris e compôs duas músicas que são associadas a essa revolta: Le temps des cerises e La semaine sanglante. A primeira, mais famosa, é na verdade uma canção de amor, composta alguns anos antes, e ulteriormente dedicada a uma enfermeira assassinada na repressão à Comuna. A segunda foi composta durante a chamada “semana sangrenta” e representa a repressão violenta ao movimento, o massacre dos insurretos pelas tropas do exército francês, que deixou mais de 20 mil mortos. O próprio Clément foi condenado à morte, mas conseguiu escapar e passou dez anos na clandestinidade. Mais a tarde ele contaria: “Eu ainda estava em Paris quando fiz essa canção. (…) Do local onde me haviam abrigado (…) ouvia todas as noites tiros de fuzil, prisões, gritos de mulheres e crianças. Era a reação vitoriosa que continuava sua obra de extermínio”.

    Se a cidade de Paris pôde ser chamada de a “capital do século XIX” (Benjamin), isso não se deve apenas à sua importância cultural. Paris foi também a capital das revoluções. Entre 1789 e 1968, ela foi a cidade “de um povo que por dez vezes enchera suas ruas de barricadas e pusera em fuga seus reis” (Debord). A mais radical dessas revoluções foi sem dúvida a Comuna de Paris, a única que não se deixou trair, que não foi apropriada pelas classes dominantes, que não deu lugar a um novo governo autoritário. E por isso ela enfrentou também a repressão mais violenta de todas. A música de Clément nos conta essa repressão, mas não deixa de afirmar a necessidade da revolta. Da Comuna resta ainda a vontade da revanche, e a promessa de que “os maus dias acabarão”.

    A semana sangrenta

    Além de moscas e policiais
    Não se veem pelos caminhos
    Mais que velhos tristes em lágrimas
    Viúvas e órfãos
    Paris transpira miséria
    Mesmo os felizes tremem
    A moda está no conselho de guerra
    E os pavimentos estão ensanguentados

    Sim, mas…
    Nada está decidido
    Esses dias ruins acabarão
    E cuidado com a revanche
    Quando todos os pobres se engajarem

    Batem, acorrentam e fuzilam
    Todos aqueles que pegam ao acaso
    A mãe ao lado de sua filha
    A criança nos braços do velho
    Os castigos da bandeira vermelha
    São substituídos pelo terror
    De todos os crápulas
    Serventes de reis e imperadores

    Eis-nos rendidos aos jesuítas
    Aos Mac Mahon aos Dupanloup
    Vai chover água benta
    Os ofertórios vão encher de dinheiro
    A partir de amanhã em júbilo
    E a igreja de São Eustáquio e a Ópera
    Vão concorrer mais uma vez
    E as prisões de trabalho forçado ficarão cheias

    Amanhã as Manons, as Lorettes
    E as damas dos belos subúrbios
    Colocarão em suas lapelas
    Fuzis e tambores
    Todos vestirão o tricolor
    A moda do dia e as fitas
    Enquanto o herói Pandore
    Fará fuzilar nossos filhos

    Amanhã os policiais
    Florescerão sobre as calçadas
    Orgulhosos de seus serviços
    E a pistola a tiracolo
    Sem pão, sem trabalho, sem armas
    Nós seremos governados
    Por moscas e policiais
    Tiranos e padres

    O povo na coleira da miséria
    Será ele sempre esmagado?
    Até quando os homens de guerra
    Vão ter a dianteira?
    Até quando a Santa Camarilha
    Nos tomará por gado ruim?
    Até quando enfim a República
    Da justiça e do trabalho?

    9. The Smashing of the Van (Resistència irlandesa à dominação inglesa, 1867)

    Elaborada em meio a uma das muitas ondas de rebeldia irlandesa contra a dominação inglesa, The smashing of the van narra a história de três jovens condenados à morte após resgatarem duas lideranças presas. O ataque a um comboio de transporte de detentos ocorreu em setembro de 1867 e resultou na morte de um policial inglês. Segundo a defesa dos irlandeses, a morte foi acidental, fruto da tentativa de arrombar a fechadura do veículo a tiros. Condenados à forca, os três rebeldes ficaram conhecidos como os mártires de Manchester – cidade onde ocorreu a ação.

    A canção recebeu outra versão quando a história do resgate de presos e da repressão se repetiu, no começo do século XX, com membros do Exército Republicano Irlandês (IRA) e se tornou um dos principais hinos da luta contra o domínio inglês. Disponibilizamos aqui a versão da banda folk The Wolfe Tones, mas ela também foi gravada pelo grupo Chumbawamba. The smashing of the van conjuga elementos da religiosidade e do nacionalismo popular da Irlanda com um apelo de caráter universal – o da legitimidade da resistência à tirania por via da ação direta.

    A destruição do camburão*

    Prestem atenção bravos irlandeses e ouçam um tempinho
    Vou lhes cantar os louvores aos filhos da Ilha da Erin
    Daqueles heróis corajosos que correram voluntariamente
    Para libertar dois trevos irlandeses de um camburão Inglês

    Meu rapazes pela liberdade, vamos todos com a mão no coração.
    Que o Senhor tenha misericórdia dos garotos que ajudaram a destruir o camburão

    Em 18 de Setembro, era um ano terrível
    Quando a dor e a emoção correram por toda Lancashire
    Em uma reunião dos garotos irlandeses cada homem se ofereceu
    Para libertar os prisioneiros irlandeses do camburão

    Em uma manhã em Manchester aqueles heróis concordaram
    Seus líderes, Kelly e Deasy, deveriam ter sua liberdade
    Brindaram à Irlanda e logo fizeram o plano
    Encontrar os prisioneiros na estrada, tomar e destruir o camburão

    Com destemida coragem aqueles heróis foram e logo o camburão parou
    Eles tiraram os guardas de trás e da frente e então quebram em cima
    Mas ao estourar a tranca, eles sem querer mataram um homem
    Então três homens deverão morrer na forca por destruir o camburão

    Então agora amáveis amigos vou concluir, eu acho que seria certo
    Que todos os Irlandeses sinceros se unissem
    Juntos devemos nos compadecer, amigos, e fazer o melhor que pudermos
    Para manter as lembranças sempre verdes dos garotos que destruíram o camburão

    * Traduzimos como “camburão” para não perder o sentido de que se tratava de um veículo para transporte de prisioneiros

    10 – The Triumph of General Ludd (Luddismo, 1812)

    Clique na imagem para ouvir a canção
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    Esta canção é encontrada com algumas variações, sendo provavelmente composta no auge da rebeldia dos ludditas, no início da década de 1810. Trabalhadores têxteis que se voltavam contra a maquinaria moderna e a alienação do trabalho, os ludditas invadiam as fábricas com os rostos cobertos e no escuro da noite, destruindo e sabotando as novas máquinas. Muitos dos textos que deixaram (como petições ao parlamento e ameaças a industriais caso não se livrassem dos equipamentos) são assinados por Ned Ludd (ou General Ludd). Personagem que se situa entre o mito e a história, Ludd era o novo Robin Hood dos trabalhadores ingleses. A reação do Estado ao luddismo foi de uma violência atroz, incluindo a aprovação da pena de morte para o crime de destruição de máquinas.

    A versão que indicamos é a do álbum English Rebel Songs 1381–1984 da banda Chumbawamba. Para quem quiser conhecer as tradições musicais rebeldes da Inglaterra, recomendamos o álbum como um todo, que inclui outra canção desta lista – The smashing of the van.

    O Triunfo do General Ludd

    Sem mais cantorias de suas velhas rimas sobre o velho Robin Hood
    Suas proezas eu pouco admiro
    Eu vou cantar as conquistas do General Ludd
    Agora, o herói de Nottingham Shire
    Esses motores de dano foram sentenciados à morte
    Por unanimidade de votos do sindicato
    E Ludd que não pode desafiar a decisão
    Foi feito o grande carrasco
    Quer guardado por soldados ao longo da rodovia
    Ou protegido de perto num quarto
    Ele os faz estremecer de noite e de dia
    E nada pode suavizar sua destruição
    E todo o time de humildes não deve mais ser oprimido
    E Ludd deve embainhar sua espada conquistadora
    E seja sua reivindicação prontamente atendida com reparação
    Que a paz deve ser rapidamente restaurada
    Deixe o sábio e o grande prestar sua ajuda e aconselhar
    Nunca antes a sua ajuda retirar
    Até que o trabalho árduo ao preço antigo
    Esteja estabelecido por costume e lei.

  • Hino à Rua

    eric-drooker

     

    Primeira ação do coletivo Baderna Midiática, o Hino à Rua é fruto da experiência das grandes manifestações de junho de 2013. A música é inspirada na canção da resistência italiana ao fascismo I ribelli della montagna e é acompanhada, em sua versão completa, por uma poesia que expressa muito do que vivemos e sentimos desde então. Contra a violência do Estado, a manipulação midiática e todas as formas de opressão, defendemos a ocupação das ruas por um mundo mais livre e igualitário.

    O vídeo está disponível nas versões completa e compacta, com legendas em quatro idiomas. Postamos aqui no blog a letra da canção e a poesia em português, espanhol, inglês e francês, além da cifra para violão. Também indicamos os links para baixar o video em formato avi e a música em MP3 (você também pode ouvir online via SoundCloud). As repercussões da canção e do video em outras mídias e nas ruas podem ser acompanhadas aqui.

     

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  • Nas mídias e nas ruas

    Hino à Rua na Revista Forum

    Hino à Rua na Caros Amigos

    Hino à Rua no Brasil de Fato

    Hino à Rua no Blog da Maria Frô

    Referência ao Hino à Rua na Marcha das Vadias de Alagoas
    Referência ao Hino à Rua na Marcha das Vadias de Alagoas
    Referência ao Hino à Rua na Marcha das Vadias de Alagoas
    Referência ao Hino à Rua na Marcha das Vadias de Alagoas

     

     

    Projeção do Hino à Rua no Manifesta (Brasília, 09/09/2013)
    Projeção do Hino à Rua no Manifesta (Brasília, 07/09/2013)
    Projeção do Hino à Rua no Manifesta (Brasília, 09/09/2013)
    Projeção do Hino à Rua no Manifesta (Brasília, 07/09/2013)
  • Hino à Rua – Letra completa

    Ela é mais que o asfalto onde eu piso
    Ela é o caminho que nos leva à liberdade
    Quando os povos oprimidos a conquistam
    É a parte mais bonita da cidade
    É ela quem escuta os nossos gritos
    O riso, o choro, o lamento de dor
    As bombas, disparos, os golpes brutais
    De quem pratica a guerra e fala em paz

    [Refrão]
    Ela é dos cantos, das batucadas
    É o povo unido quem a detém
    É das bandeiras, das barricadas
    Ela é de todos porque é de ninguém
    Não é dos chefes, nem dos patrões
    Não é uma posse, não é um bem
    Nem dos Estados, nem das nações
    Ela é de todos porque é de ninguém

    Rua. Segundo lar
    Primeiro campo de futebol

    Te querem apenas caminho
    pra quem te depreda com fumaça preta

    Te querem assunto de urbanistas
    engenheiros
    criminologistas

    Eu te quero assunto de poetas
    De amantes
    e de povos rebelados

    Te quero
    dos que te construíram e que hoje não te podem desfrutar
    Porque foram descartados, porque foram despejados

    Toda ocupação que resiste no centro da cidade
    tem um pouco de quilombo

    Ameaça ao latifúndio urbano
    Monocultura cinza movida a petróleo e suor
    O suor de quem vem nos trens lotados

    Todo busão que vem cheio das quebradas, que vem cheio de catracas
    tem um pouco de navio negreiro
    Transporte desumano de carne humana
    Pra ser moída e desossada no trabalho

    Rua, você é de todos
    Que fora do trabalho são suspeitos
    De roubar, de depredar, de discordar
    Ou de não contribuir pro crescimento do Produto Interno Bruto

    Quem veste um capuz e extermina na favela é um pouco capitão-do-mato

    Rua
    Te quero das mulheres ensinadas desde cedo que só podem brincar dentro de casa
    porque a rua é perigosa, porque a rua é violenta
    porque a rua é dos meninos que não sabem respeitar

    Rua eu te conheço, quem te faz uma ameaça às meninas e mulheres
    É a mesma opressão que torna as casas inseguras
    Mais que as ruas

    A rua é de todos os amores
    É daqueles que tiveram que ocupa-la
    pelo direito de existir

    Todo discurso moralista que se opõe à igualdade
    Que se opõe à autonomia sobre o corpo
    É um pouco tribunal da Inquisição

    A rua não comporta privilégios
    Não tem dono nem tem preço

    É como o vento, o sol, a chuva
    o calor, as nuvens, cores
    minha alegria e minhas dores

    Por isso hoje eu vim pra rua

    13 de junho de 2013, noite fria
    Ocupamos a rua para devolver o que é dela de direito
    O lugar da assembleia mais legítima

    Na televisão 5 mil vândalos sem causa interrompiam o trânsito

    Nas ruas
    15, 20 ou 30 mil lutavam por uma vida sem catracas

    Nos chamavam “loucos” como chamavam os balaios que encaravam o poder de peito aberto
    em um país construído sobre corpos, assentado sobre o sangue
    Dos explorados

    Nos chamavam “criminosos violentos” como chamam violento ao rio que tudo arrasta
    Mas não as margens que o oprimem

    Criminosos também eram chamados os luditas
    panteras negras, zapatistas, feministas
    milicianos da Espanha, guerrilheiros da América Latina

    insurretos de Istambul, do Cairo e de Atenas
    de Buenos Aires, de Paris, de Cochabamba
    de Pequim, de Porto Príncipe, de Gaza
    de Londres, de Soweto, de Lisboa

    Trabalhadores anarquistas da Itália ou de São Paulo
    quilombolas da Jamaica ou da Bahia
    rebeldes e poetas de todas as periferias

    Loucos, criminosos, estudantes
    Nos querem dentro de hospícios, de cadeias, de escolas
    Longe das ruas

    Querem as grades, os muros, as cercas, as catracas
    Uma cidade em que circulam carros, mas onde as pessoas
    São confinadas

    Jornalistas, doutores, políticos não podem entender
    Que democracia é muito mais que apertar um botão de vez em quando

    Que estamos dispostos a fazer a nossa história mesmo nas piores condições
    Que não temos ilusões, nem vivemos fantasias
    Somos aqueles que se movem
    E por isso sentimos o peso das correntes que nos prendem

    Eles podem mas não querem entender
    Que já sabemos que o Estado e o capital são gêmeos siameses
    Vivem brigando, mas partilham o mesmo sangue e o mesmo coração
    Nasceram juntos e juntos vão morrer pelas mãos dos explorados

    Que já sabemos que o estado de exceção em que vivemos
    É na verdade regra geral
    Que essa paz que oferecem não é nada além de medo

    Que passado este medo não haverá quem defenda suas mansões
    E não vai faltar quem abra as portas pelo lado de dentro

    Que em tempo de desordem sangrenta e confusão organizada
    nada nos parece natural
    Nada nos parece impossível de mudar

    Que agora as mentiras da TV são motivos de piada
    Que o rei está nu e sua foto tá nas redes sociais

    Que foi nos organizando que nós desorganizamos
    E que é desorganizando
    que vamos nos organizar

    Nada do que venha a acontecer vai tirar de nós o sentimento
    de ter tomado o céu de assalto
    de ter presenciado quando a vida surgiu de uma nuvem de gás lacrimogêneo

    Arrancamos a política das malhas do mundo profano

    Nossas palavras dedicamos a
    Ademir, André, Carlos Eduardo
    Cleonice, Douglas, Eraldo
    Fabrício, Igor, Jonatha
    José Everton, Lucas, Luiz
    Marcos, Renato, Roberto, Valdinete

    E a todas as vítimas anônimas da violência do Estado
    em sua defesa feroz do capital

    Na rua nenhum monumento é inocente
    Nela os que tombaram ressurgem pra lutar ao nosso lado

    Os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer
    Combatemos para que não morram a morte do esquecimento
    Combatemos para impedir o inimigo de vencer

  • Hino à Rua – Cifra

    Intro: Em – D – Em – D – C – Bm – Em – D

    Em                         D
    Ela é mais que o asfalto onde eu piso

    Em                        D
    Ela é o caminho que nos leva à liberdade

    C                    Bm
    Quando os povos oprimidos a conquistam

    Em                    C
    É a parte mais bonita da cidade

    Em                         D
    É ela quem escuta os nossos gritos

    Em                  D
    O riso, o choro, o lamento de dor

    C                    Bm
    As bombas, disparos, os golpes brutais

    Em              D       C       Em
    De quem pratica a guerra e fala em paz

    [Refrão]

    G               D
    Ela é dos cantos, das batucadas

    C             Em
    É o povo unido quem a detém

    G                D
    É das bandeiras, das barricadas

    Em                    C
    Ela é de todos porque é de ninguém

    G                 D
    Não é dos chefes, nem dos patrões

    C               Em
    Não é uma posse, não é um bem

    G                D
    Nem dos Estados, nem das nações

    Em                   C
    Ela é de todos porque é de ninguém

    Intro 2x : Em – D – Em – D – C – Bm – Em – D

    Em                         D
    Ela é mais que o asfalto onde eu piso

    Em                        D
    Ela é o caminho que nos leva à liberdade

    C                    Bm
    Quando os povos oprimidos a conquistam

    Em                    C
    É a parte mais bonita da cidade

    Em                         D
    É ela quem escuta os nossos gritos

    Em                  D
    O riso, o choro, o lamento de dor

    C                    Bm
    As bombas, disparos, os golpes brutais

    Em              D       C       Em
    De quem pratica a guerra e fala em paz

    [Refrão]

    G               D
    Ela é dos cantos, das batucadas

    C             Em
    É o povo unido quem a detém

    G                D
    É das bandeiras, das barricadas

    Em                    C
    Ela é de todos porque é de ninguém

    G                 D
    Não é dos chefes, nem dos patrões

    C               Em
    Não é uma posse, não é um bem

    G                D
    Nem dos Estados, nem das nações

    Em                   C
    Ela é de todos porque é de ninguém

    Intro: Em – D – Em – D – C – Bm – Em – D

    Em              D
    Ela é dos cantos, das batucadas

    Em            D
    É o povo unido quem a detém

    C                Bm
    É das bandeiras, das barricadas

    Em                   D
    Ela é de todos porque é de ninguém

    Em                D
    Não é dos chefes, nem dos patrões

    Em              D
    Não é uma posse, não é um bem

    C                Bm
    Nem dos Estados, nem das nações

    Em                   D
    Ela é de todos porque é de ninguém

  • Hymne à la Rue, en Français

    Elle est plus que l’asphalte où je marche
    Elle est le chemin qui nous porte à la liberté
    Quand les peuples opprimés la conquièrent
    Elle est la partie la plus belle de la ville
    C’est elle qui entend nos cris
    Le rire, le pleur, le cri de douleur
    Les bombes, les tirs, les coups brutaux
    De qui fait la guerre et parle de la paix

    Elle est aux chants, aux tambours
    C’est le peuple uni qui la détient
    Elle est aux drapeaux, aux barricades
    Elle est à tous, parce qu’elle n’appartient à personne
    Elle n’est pas aux maîtres, ni aux patrons
    Elle n’est pas une possession, ni un bien
    Ni aux États, ni aux nations
    Elle est à tous, parce qu’elle n’appartient à personne

    Rue. Second chez-soi.
    Premier terrain de foot.

    On veut que tu sois juste un chemin
    Pour qui te ruine avec de la fumée noire

    On veut que tu sois un sujet des urbanistes,
    Des ingénieurs
    Des criminologues

    Je veux que tu sois un sujet des poètes,
    Des amants,
    Et des peuples insurgés

    Je veux que tu sois
    À ceux qui t’ont bâtie et qui ne peuvent pas en profiter
    Parce qu’ils ont été rejetés, chassés

    Toute occupation qui résiste dans le centre ville
    A quelque chose de quilombo

    Elle menace la grande propriété urbaine
    Monoculture grise nourrie de pétrole et sueur
    La sueur de qui arrive dans les trains affolés

    Chaque bus qui arrive affolé des banlieues, plein de tourniquets
    A quelque chose de bateau négrier
    Transport inhumain de chair humaine
    Pour être hachée et désossée dans le travail

    Rue, tu es à tous
    À ceux qui hors du travail sont soupçonnés
    De voler, de vandaliser, de contester
    Ou de ne pas contribuer pour la croissance du produit interne brut

    Celui qui porte la capuche pour tuer dans les favelas a quelque chose de chasseur d’esclaves

    Rue,
    Je veux que tu sois aux femmes qui ont toujours appris à ne jouer que dans la maison
    Parce que la rue est dangereuse, violente
    Parce que la rue est des garçons qui ne respectent pas

    Rue, je te connais, ce qui te fait une menace aux femmes et aux jeunes filles
    Est la même oppression qui fait les maisons plus dangereuses
    Plus qu’aucune rue

    La rue est à tous les amours
    Elle est à ceux qui ont dû l’occuper
    Pour le droit d’exister

    Tout le discours moraliste qui s’oppose à l’égalité
    Qui s’oppose à l’autonomie du corps
    Est une sorte de tribunal de l’inquisition

    La rue ne comporte pas des privilèges
    Elle n’a pas de prix ni de propriétaire

    Elle est comme le vent, le soleil, la pluie
    La chaleur, les nuages, les couleurs
    Ma joie et mes douleurs.

    C’est pour ça qu’aujourd’hui je suis descendu dans la rue

    13 juin 2013, nuit froide
    On a pris la rue pour lui redonner ce qui lui appartient de droit
    Le lieu de la plus légitime assemblée

    Dans la télé 5 mil vandales sans cause interrompaient le trafic

    Dans les rues…
    15, 20 ou 30 mille personnes luttaient pour une vie sans tourniquets

    On nous appelait des « fous » comme on le faisait pour les « balaios », vanniers qui livraient combat ouvert au pouvoir en 1838
    Dans un pays bâti sur les corps, assis sur le sang
    Des exploités

    On nous appelait des « criminels violents » comme on appelle violente un fleuve qui tout emporte
    Mais non pas les rives que l’enserrent

    Des criminels, ainsi étaient appelés aussi les luddites,
    Les Black panthers, les zapatistes, les féministes,
    Les milices espagnoles, les guérillas d’Amérique Latine
    Les insurgés d’Istanbul, du Caire et d’Athènes
    De Buenos Aires, Paris, Cochabamba
    Péquin, Porto Principe, Gaza
    Londres, Soweto, Lisbonne

    Les travailleurs anarchistes de l’Italie ou de São Paulo
    Les habitants des quilombos de Jamaïque ou de Bahia
    Les rebelles et les poètes de toutes les périphéries

    Des fous, des criminels, des étudiants
    On veut nous enfermer dans les hôpitaux psychiatriques, dans les prisons, dans les écoles
    Loin de la rue

    On veut des grilles, des murs, des barreaux, des tourniquets
    Une ville où roulent les voitures, mais où les gens
    Sont renfermés

    Les journalistes, les docteurs, les hommes politiques ne peuvent pas comprendre
    Que la démocratie est bien plus que glisser une enveloppe dans une urne de temps en temps

    Que nous sommes prêts à faire notre histoire même dans les pires des conditions
    Que nous n’avons pas d’illusion, ni vivons-nous de fantaisies
    Nous sommes ceux qui bougent
    Et que pour ça nous sentons le poids des chaînes qui nous lient

    Ils peuvent mais ne veulent pas comprendre
    Que nous savons déjà que l’État et le capital sont des jumeaux conjoints
    Ils se disputent souvent, mais ils partagent le même sang et le même cœur
    Ils sont nés ensemble et ils mourront ensemble par les mains des exploités

    Que nous savons déjà que l’état de siège dans lequel nous vivons
    Est la règle générale
    Que cette paix que l’on nous offre n’est rien d’autre que de la peur

    Qu’une fois finie cette peur, il n’y aura personne qui puisse défendre leurs grandes maisons
    Et il ne manquera pas ceux qui ouvriront les portes par l’intérieur

    Que dans un temps de désordre sanglant et de confusion organisée,
    Rien ne nous semble naturel
    Rien ne nous semble impossible de changer

    Que maintenant on se moque des mensonges de la télé
    (Un policier qui casse les vitres de sa propre voiture de police)
    Que le roi est nu et sa photo est sur les réseaux sociaux

    Qu’en nous organisant nous avons désorganisé
    Et que c’est en désorganisant
    Que nous allons nous organiser

    Rien qui puisse arriver ne va nous ôter le sentiment
    D’être montés à l’assaut du ciel
    D’avoir vu surgir la vie à travers la fumée du lacrymogène

    On a arraché la politique aux mailles du monde profane

    Nos mots sont dédiés à
    Ademir, André, Carlos Eduardo
    Cleonice, Douglas, Eraldo
    Fabrício, Igor, Jonatha
    José Everton, Lucas, Luiz
    Marcos, Renato, Roberto, Valdinete

    Et à toutes les victimes anonymes de la violence d’État
    Dans la défense féroce du Capital

    Dans la rue un monument ne peut pas être innocent
    Dans la rue ceux qu’y sont tombés reviennent pour lutter avec nous

    Si l’ennemi triomphe, même les morts ne seront pas en sûreté
    Nous combattons pour qu’ils ne meurent pas la mort de l’oubli
    Nous combattons pour empêcher la victoire de l’ennemi

  • Anthem to the Street, in English

    She is more than the asphalt floor where I step
    She is the path that leads us to freedom
    When the oppressed people conquer her
    She is the most beautiful part of the city
    She is the one who hears our screams
    The laughter, the crying, the moan of pain
    The bombs, shootings, and brutal blows
    Of those who practice war and talk about peace

    [Chorus]
    She is of the singing, of the drumming
    It is the united people who holds her
    She is of the flags, of the barricades
    She is of everyone because she is of no one
    She is neither of the chiefs, nor of the bosses
    She is not a possession, she is not a property
    Neither of the states nor of the nations
    She is of everyone because she is of no one

    Street. My second home
    First soccer pitch.

    They want you only as a path
    For those who prey you with black smoke.

    They want you as a subject of planners,
    Engineers,
    Criminologists.

    I want you as a subject of poets
    Of lovers
    And of people rebelling.

    I want you
    Of everyone who built you but who can’t enjoy you now
    Because they were discarded, ‘cause they were dumped.

    Every occupation that stands in the downtown area
    Has a bit of quilombo in it

    Threat to the urban landlordism
    Gray monoculture moved by oil and sweat
    The sweat of those who come in crowded trains

    Every bus that comes crowded from the ghettos, that comes full of turnstiles
    Has a bit of slave ship in it
    Inhuman transportation of human flesh
    To be grinded and deboned at work

    Street, you are from all of those
    Who outside work are suspects
    Of stealing, of plundering, of disagreeing
    Or not contributing to the growth of Gross Domestic Product

    It was in your squares that a long time ago they raised
    Pillories and stables

    One who wears the hood and exterminates people in the slum is a bit of a slavehunter

    Street,
    I want you to be of the women taught since early that they can only play indoors
    Because the street is dangerous, ‘cause the street is violent
    Because the street is of the boys who don’t know how to respect them

    Street, I know you, who turns you into a threat to girls and women
    Is the same oppression that makes the houses unsafe
    More than the streets

    The street is of all the loves
    It’s of those who had to occupy it
    In order to earn the right to exist

    Every moralist discourse which opposes to equality
    Which opposes to autonomy over the body
    Is a bit of Inquisition Tribunal

    The street does not carry privileges,
    It has no owner and no price

    It’s like the wind, the sun, the rain
    The heat, the clouds, the colors
    My joy and my pain.

    That’s why I came to the street today

    June 13, 2013, cold night…
    We occupied the street to return what belongs rightfully to it
    The place of the most legitimate assembly

    On the TV, five thousands vandals without a cause interrupt the traffic

    On the streets…
    15, 20 or 30 thousands fought for a life without turnstiles

    They call us “madmen” just as they called the “balaios” [basket makers – rebels of Maranhão, Brazil, 1838-1840] who faced power head to head
    In a country built on bodies, seated on the blood
    Of the exploited ones

    We were called “violent criminals” as they call violent the river that drags all
    But not the riverbanks that overwhelm it

    Criminals were also called the Luddites,
    Black Panthers, Zapatistas, Feminists
    Spain’s militia, Latin America’s guerrillas

    The insurgents of Istanbul, Cairo and Athens
    Buenos Aires, Paris, Cochabamba
    Beijing, Port au Prince, Gaza
    London, Soweto, Lisbon

    Anarchist workers from Italy or São Paulo
    Maroons from Jamaica or from Bahia
    Rebels and poets from all peripheries

    Madmen, criminals, students
    They want us within hospices, prisons, schools
    Away from the streets

    They want the grids, walls, fences, turnstiles
    A city where the cars move, but where people
    Are confined

    Journalists, doctors, politicians cannot understand
    That democracy is much more than just pushing a button from time to time

    That we’re willing to make our own history even in the worst conditions
    That we have no illusions, nor live in fantasies
    That we’re those who move
    And so we feel the weight of the chains that seize us

    They can, but don’t want to understand
    That we already know that the State and the Capital are Siamese twins
    They always fight, but they share the same blood and the same heart
    They were born together and together they’ll die from the exploited’s hands

    That we already know that the state of exception in which we live
    It’s actually the rule
    That this peace they offer us is nothing but fear

    That when this fear passes no one will defend their mansions
    And that there’ll always be someone to open the doors from the inside

    That in times of bloody disorder and organized turmoil,
    Nothing seems natural to us
    Nothing seems impossible to change

    Now that the TV’s lies are a laughingstock
    That the king is naked and his photos are on social networks

    That it was in organizing ourselves that we disorganize
    And that is disorganizing
    That we’ll organize ourselves

    Nothing that may happen will take away from us the feeling
    Of having stormed heaven
    Of having witnessed the life emerging from a cloud of tear gas

    We pulled politics out of the profane world’s meshes

    Our words are dedicated to
    Ademir, André, Carlos Eduardo
    Cleonice, Douglas, Eraldo
    Fabrício, Igor, Jonatha
    José Everton, Lucas, Luiz
    Marcos, Renato, Roberto, Valdinete
    And to all the anonymous victims of the state’s violence
    In its fierce defense of capital

    On the street no monument is innocent
    Those who died in it reappear to fight on our side

    The dead will not be safe if the enemy wins
    We fight so they do not die the death of oblivion
    We fight to prevent the enemy to win

  • Himno a la Calle, en Español

    Ella es más que el asfalto donde yo camino
    Ella es el camino que nos lleva a la libertad
    Cuando los pueblos oprimidos la conquistan
    Es la parte más hermosa de la ciudad
    Es ella quien escucha nuestros gritos
    La risa, el llanto, el lamento de dolor
    Las bombas, disparos, los golpes brutales
    De quien practica la guerra y habla en paz

    [estribillo]

    Ella es de los cantos, de los tamboriles
    Es el pueblo unido quien la detiene
    Es de las banderas, de las barricadas
    Ella es de todos porque es de nadie
    No es de los jefes, ni de los patronos
    No es una posesión, no es un bien
    Ni de los Estados, ni de las naciones
    Ella es de todos porque es de nadie

    Calle. Segundo hogar
    Primero campo de fútbol
    Te quieren sólo camino
    para quien te depreda con humo negro
    Te quieren asunto de urbanistas,
    ingenieros,
    criminalistas.

    Yo te quiero asunto de poetas
    De amantes
    Y de los pueblos rebelados.

    Te quiero
    De los que te construyeron y que hoy no te la pueden desfrutar
    Porque fueron descartados, porque fueran echados

    Toda ocupación que resiste en el centro de la ciudad
    tiene un poco de quilombo

    Amenaza al latifundio urbano
    Monocultivo gris movido a petróleo y sudor
    El sudor de quien viene en los trenes llenos

    Todo autobús que viene lleno de las periferias, que viene lleno de torniquetes
    tiene un poco de buque negrero
    Transporte deshumano de carne humana
    para ser molida y deshuesada en el trabajo

    Calle, usted es de todos
    Que fuera del trabajo son sospechosos
    De robar, de depredar, de discordar
    O de no contribuir para el crecimiento del Producto Nacional Bruto

    Quien viste una capucha y extermina en los barrios bajos es un poco capitán del mato

    Calle,
    Te quiero de las mujeres enseñadas desde temprano que sólo pueden jugar dentro de casa
    porque la calle es peligrosa, porque la calle es violenta
    porque la calle es de los chicos que no saben respetar
    Calle yo te conozco, quien te hace una amenaza a las chicas y mujeres
    Es la misma opresión que torna las casas inseguras
    Más que las calle

    La calle es de todos los amores
    Es de aquellos que tuvieran que ocuparla
    por el derecho de existir

    Todo discurso moralista que se opone a la igualdad
    Que se opone a la autonomía sobre el cuerpo
    Es un poco tribunal de la Inquisición

    La calle no comporta privilegios
    No tiene dueño ni precio

    Es como el viento, el sol, la lluvia
    El calor, las nubes, los colores
    mi alegría es mi dolores.

    Por eso hoy yo vine para calle

    El 13 de junio de 2013, noche fría
    Ocupamos la calle para devolver el que es de ella de derecho
    El lugar de la asamblea más legítima

    En la televisión 5 mil vándalos sin causa interrumpían el tránsito

    En las calles…
    15, 20 o 30 mil luchaban por una vida sin torniquetes

    Nos llamaban “locos” como llamaban los balaios que encaraban el poder de pecho abierto
    en un país construido sobre cuerpos, asentado sobre la sangre
    De los explotados
    Nos llamaban “criminosos violentos” como llamaban violento al río que todo arrastra
    Pero no los márgenes que lo oprimen

    Criminosos también eran llamados los luditas
    panteras negras, zapatistas, feministas
    milicianos de España, guerrilleros de Latino América

    insurrectos de Estambul, del Cairo y de Atenas
    de Buenos Aires, de Paris, de Cochabamba
    de Pekín, de Puerto Príncipe, de Gaza
    de Londres, de Soweto, de Lisboa

    Trabajadores anarquistas de Italia o de San Pablo
    quilombolas de Jamaica o de Bahia
    rebeldes y poetas de todas las periferias

    Locos, criminosos, estudiantes
    Nos quieren dentro de manicomios, de las cárceles, de las escuelas
    Lejos de las calles

    Quieren las rejas, los muros, las vallas, los torniquetes.
    Una ciudad en que circulan coches, pero donde las personas
    Son encerradas

    Periodistas, doctores, políticos no pueden entender
    Que democracia es mucho más que apretar un botón de vez en cuando

    Que tenemos ganas de hacer nuestra historia mismo en las peores condiciones
    Que no tenemos ilusiones, ni vivimos fantasías
    Somos aquellos que se mueven
    Y por eso sentimos el peso de las cadenas que nos encierran

    Ellos pueden pero no quieren entender
    Que ya sabemos que el estado y el capital son gemelos siameses
    Viven peleando, pero comparten la misma sangre y el mismo corazón
    Nacieron juntos y juntos van a morir por las manos de los explotados

    Que ya sabemos que el estado de excepción en que vivimos
    Es en realidad regla general
    Que esa paz que ofrecen no es nada además del miedo

    Que pasado este miedo no habrá quien defienda su palacio
    Y no va a faltar quien abra las portas por el lado de dentro

    Que en tiempo de desorden sangrenta y confusión organizada
    nada nos parece natural
    Nada nos parece imposible de cambiar

    Que ahora las mentiras de la tele son motivos de chistes
    Que el rey está desnudo y su foto está en las redes sociales

    Que fue nos organizando que nos desorganizamos
    Y que es desorganizando
    que vamos nos organizar

    Nada de lo que venga a ocurrir va a sacar de nosotros el sentimiento
    de tener tomado el cielo de golpe
    de tener presenciado cuando la vida surgió de una nube de gas lacrimógeno

    Arrancamos la política de las mallas del mundo profano

    Nuestras palabras dedicamos a
    Ademir, André, Carlos Eduardo
    Cleonice, Douglas, Eraldo
    Fabrício, Igor, Jonatha
    José Everton, Lucas, Luiz
    Marcos, Renato, Roberto, Valdinete

    Y a todas las víctimas anónimas de la violencia del Estado
    en su defensa feroz del capital

    En la calle ningún monumento es inocente
    En ella los que tumbaron resurgen para luchar al nuestro lado

    Los muertos no estarán seguros si el enemigo vencer
    Combatiremos para que no mueran la muerte del olvido
    Combatiremos para impedir el enemigo de vencer