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Eles também cantaram um dia: 10 canções, 10 revoluções

Eu tenho certeza: eles também cantaram um dia!
Chico Science

Desde junho dezenas de músicas foram lembradas ou criadas por inspiração da experiência viva da tomada das ruas em todo o país. O Hino à Rua, feito pelo coletivo Baderna Midiática, é apenas uma dentre outras canções, como esta e esta. É claro que também surgiram produções puramente mercadológicas, sem qualquer relação com o movimento que tomou as ruas, ou ainda aquelas que, bancadas pela grande mídia, procuram arrancar das manifestações seu espírito contestador. Mas existe hoje, como existiu em todos os momentos como este, a resistência do movimento popular contra os que querem impor suas bandeiras, seus símbolos e suas canções.

O que importa lembrar é que desde que há revoluções e insurreições populares as canções estão presentes a animar a luta. Uma mostra disso está na lista abaixo, na qual incluímos 10 músicas acompanhadas por uma breve apresentação e pela letra traduzida para o português. A seleção inclui apenas canções que são inseparáveis de momentos revolucionários ou insurrecionais, seja porque foram feitas em meio às batalhas, seja porque inspiraram os que lutaram. Começamos nosso percurso na Insurreição de Istambul, ocorrida pouco antes da tomada das ruas no Brasil, e o concluímos mais de 200 anos atrás. A lista poderia ser muito maior, pois ao que parece não há revolução que não se expresse musicalmente. 

Tem outras sugestões para a lista? Deixe seu comentário!

1. Tencere tava havasi (Insurreição de Istambul, 2013)

Uma das belíssimas canções que surgiram dos protestos recentes em Istambul, Tencere tava havasi (“O som das panelas e frigideiras”) foi composta e gravada numa performance de rua pelo grupo Kardeş Türküler. Formado há 20 anos por músicos dos mais diversos grupos étnicos da Turquia (como curdos, árabes e armênios), o grupo sempre teve como objetivo a defesa da diversidade através da música. Em meio à dura repressão do primeiro semestre de 2013, ofereceram aos manifestantes de Istambul e ao mundo uma canção maravilhosa.

Tencere tava havasi trata do movimento que teve início como resistência à derrubada de um parque para a construção de um shopping center. Além do ataque a um espaço frequentado pela juventude, o movimento reagia a uma série de leis arbitrárias que em parte estavam ligadas à “bancada islâmica” (a “bancada evangélica” deles), como é o caso da proibição de venda de bebida apos as 22h. Por isso a música diz que “eles venderam nossos bosques” e também critica “decretos e ordens obstinadas”. O refrão “Venha devagar, o chão está molhado” faz referência a uma das principais armas usadas pela repressão: os jatos de água lançados para derrubar as multidões.

No vídeo, chama atenção também a referência aos pinguins. A razão disso é interessante. No dia em que as manifestações cresceram tanto que não dava mais para a mídia ignorá-las, diversas emissoras cancelaram os telejornais para não ter que mostrar que o país estava tomado por uma insurreição popular. Um deles, a CNN-Turquia decidiu colocou um documentário sobre a vida dos pinguins no lugar do telejornal. A atitude da midia virou piada e os manifestantes passaram a dizer que eles eram os pinguins, ou a resistência da Antártida.

O som das panelas e frigideiras
Chega de declarações inconsistentes e proibições
Chega de decretos e ordens obstinadas
Oh não, já tivemos o suficiente
Oh não, nós realmente estamos fartos
Quanta arrogância! Quanto ódio!
Venha devagar, o chão está molhado

Eles não podiam vender suas sombras
Então ele venderam os bosques
Eles derrubaram, fecharam cinemas e praças

Abrigado em shopping centers
Eu não me sinto como se atravessasse esta ponte
O que aconteceu com nossa cidade?
Está repleta de edifícios

Oh, amada Istambul
Deitada adoecida
Sua beleza arruinada
Quanta desgraça, quanto gás, que luto é este?
Tudo está derrubado pelo chão
O que aconteceu com você?
Me diga, me diga!
Não quero você deste jeito.
Não, eu não quero

Oh não, já tivemos o suficiente
Oh não, nós realmente estamos fartos
Quanta arrogância! Quanto ódio!
Venha devagar, o chão está molhado

2. Kelmti Horra (Insurreição Tunisina, 2011-2012)

A canção Kelmti Horra (“Minha palavra é livre”) foi composta anos antes da insurreição que eclodiu na Tunísia nos últimos dias de 2011. Porém, foi em meio aos protestos que a música se tornou conhecida, principalmente através de um vídeo de Emel Mathlouthi cantando em meio aos manifestantes nas ruas de Túnis. Apesar de não ser a autora da canção, ela já a interpretava desde antes da insurreição. Cantora de protesto, Emel Mathlouthi teve suas músicas proibidas na Tunísia em 2008, quando resolveu se mudar para a França. Retornou a seu país em meio à revolta de 2011.

A Insurreição Tunisina teve início em 17 de dezembro, quando o vendedor ambulante Mohamed Bouazizi ateou fogo ao próprio corpo, num ato de desespero após ter suas mercadorias confiscadas pelo governo. Humilhado pelas autoridades, ele ainda sofreu extorsão ao tentar reaver o que lhe foi tomado ilegalmente (pois não havia proibição do tipo de comércio que ele fazia). Emel Mathlouthi também dedicou uma música a Bouazizi, adaptada de uma canção em tributo a dois anarquistas executados nos Estados Unidos em 1927.

Vivendo há muito sob um governo autoritário, a população reagiu após a autoimolação de Bouazizi, exigindo a queda do presidente Ben Ali, que foi forçado a deixar o poder e convocar eleições menos de um mês após o início dos protestos.

Minha palavra é livre

Eu sou daqueles que são livres e nunca temem
Eu sou os segredos que nunca morrerão
Eu sou a voz daqueles que não cederiam
Eu sou o sentido em meio ao caos

Eu sou o direito do oprimido
Que é vendido por esses cachorros (pessoas que são cachorros)
Que roubam as pessoas do seu pão de cada dia
E batem com a porta na cara das idéias

Eu sou aqueles que são livres e nunca temem
Eu sou os segredos que nunca morrerão
Eu sou a voz daqueles que não cederiam
Eu sou livre e minha palavra é livre
Eu sou livre e minha palavra é livre

Não se esqueça do preço do pão
E não se esqueça a causa da nossa miséria
E não se esqueça de quem nos traiu no momento de necessidade

Eu sou daqueles que são livres e nunca temem
Eu sou os segredos que nunca morrerão
Eu sou a voz daqueles que não cederiam
Eu sou o segredo da rosa vermelha
Daquela que colore os anos amados
Que perfuma os rios enterrados
E que se espalhou feito fogo
Convocando os que são livres

E sou uma estrela brilhando na escuridão
Eu sou um espinho na garganta do opressor
Eu sou um vento tocado pelo fogo
Eu sou a alma daqueles que não estão esquecidos
Eu sou a voz daqueles que não morreram

Vamos fazer barro do aço
E construir com ele um novo amor
Que se torna passáros
Que se torna um novo país/lar
Que se torna vento e chuva

Eu sou todas as pessoas livres do mundo juntas
Eu sou como uma bala

3. El pueblo unido, jamás será vencido (Luta popular e resistência ao golpe no Chile, 1973)

 “O povo unido jamais será vencido”: traduzido para os mais diversos idiomas, este é certamente um dos gritos mais presentes em manifestações no mundo todo. A frase, inspirada no discurso de um líder político colombiano, era um dos lemas da campanha da Unidade Popular no Chile, responsável por levar Salvador Allende ao poder e, com ele, a organização que vinha sendo construída há anos pelo povo chileno. A melodia é do compositor Sergio Ortega Alvarado, enquanto a letra é da banda Quilapayún – importante representante da Nueva Canción Chilena, ao lado de Victor Jara, dentre outros. O grupo também foi o primeiro a gravar a canção, num concerto ao vivo apenas três meses antes do golpe de estado que derrubou Allende.

O vídeo acima foi gravado no momento de maior radicalização política da história do Chile, quando a organização popular se mostrava poderosa diante de seus inimigos internos e externos. O golpe dado por Augusto Pinochet com apoio aberto das potências capitalistas, especialmente os EUA, massacrou a organização do povo, os músicos da Nueva Canción e todos que estavam no caminho do imperialismo e das classes dominantes chilenas. De experiência democrática socialista, o Chile se tornou o laboratório do neoliberalismo sob um regime que está entre os mais brutais da história do continente.

Mas a memória daquela experiência não se apagou nem durante nem após a ditadura de Pinochet, o que se percebe inclusive na presença da canção composta e rapidamente sufocada em 1973. É o mesmo grito que se ouviu quando um milhão de chilenos tomaram as ruas há poucos anos. O registro, feito por um brasileiro, é emocionante.

O povo unido, jamais será vencido!

De pé, cantar que vamos triunfar.
Avançam já bandeiras de unidade.
E você virá marchando junto a mim
E assim verá seu canto e sua bandeira florescer,
A luz de um vermelho amanhecer
Já anuncia a vida que virá.

De pé, lutar, o povo vai triunfar.
Será melhor a vida que virá
Conquistar nossa felicidade
Em um clamor de mil vozes de combate se levantarão
Dirão canção de liberdade
Com decisão a pátria vencerá.

E agora o povo que se levanta na luta
Com voz de gigante gritando: Enfrente!
O povo unido, jamais será vencido!
O povo unido jamais será vencido!

A pátria está forjando a unidade
De norte a sul se mobilizará
Desde a salina ardente e mineral
Aos bosques do sul unidos na luta e trabalho
Irão, a pátria cobrirão,
Seu passo já anuncia o porvir.

De pé, cantar o povo vai triunfar
Milhões já, impõe a verdade
De aço são ardente batalhão
Suas mãos vão levando a justiça e a razão
Mulher, com fogo e com coragem
Já está aqui junto ao trabalhador.

4. La Vie S’ecoule La Vie S’enfuit (Insurreição de Paris, 1968)

Gravada pela primeira vez em 1974, com interpretação de Jacques Marchais, a música foi atribuída a um anarquista anônimo, suposto participante da greve que paralisou a região belga da Valônia em 1961. Mas na verdade a música foi composta por Raoul Vaneigem, um dos principais nomes do movimento situacionista. E mesmo se alguns situacionistas estiveram presentes na greve belga, entre eles o próprio Vaneigem, a composição deve ser mais justamente associada à insurreição parisiense de Maio de 68, na qual os situacionistas tiveram um papel importante.

La Vie S’ecoule La Vie S’enfuit não foi a única canção a nascer de Maio de 68, tampouco a única escrita pelos situacionistas – poderíamos pensar, por exemplo, na canção do CMDO, o comitê de ocupação da Sorbonne. Mas a canção de Vaneigem exprime, talvez melhor que outras, o “rastro luminoso dos situacionistas” (Kurz) que formou o espírito dessa revolta. Nela encontramos a recusa de toda forma de representação política (partidos, dirigentes, Estado), a valorização da revolta como festa e, sobretudo, a crítica de um mundo no qual a nossa própria vida continua a nos escapar. Na oscilação entre um trabalho que não queremos e o consumo de mercadorias que não precisamos, a nossa “juventude morre de tempo perdido”.

A vida se esvai, a vida escapa.

A vida se esvai, a vida escapa
Os dias desfilam ao passo do tédio
Partido dos vermelhos, partido dos cinzas
Nossas revoluções são traídas

O trabalho mata, o trabalho paga
O tempo se compra no supermercado
O tempo pago não volta mais
A juventude morre de tempo perdido

Os olhos feitos para o amor de amar
São o reflexo de um mundo de objetos
Sem sonho e sem realidade
Somos condenados às imagens

Os fuzilados, os famintos
Vem até nós do fundo do passado
Nada mudou, mas tudo começa
E vai amadurecer na violência

Queimem, covis de padres
Ninhos de mercadores, de policiais
No vento que semeia a tempestade
Colhem-se os dias de festa

Os fuzis sobre nós dirigidos
Contra os chefes vão se virar
Sem mais dirigentes, sem mais Estado
Para aproveitar de nossos combates

5. Bella Ciao (Resistência ao fascismo na Itália, décadas de 1930-40)

A heroica história da resistência ao fascismo na Itália deixou uma belíssima herança musical, a começar por Il Ribelli della Montagna, canção que inspirou nosso Hino à Rua. No caso de Bella Ciao, o canto ganhou o mundo, dos EUA à Palestina, passando pelas recentes manifestações de Istambul.

A melodia já existia desde pelo menos o final do século XIX, sendo originalmente uma música cantada no trabalho de colheita nos campos da Itália. A letra, por sua vez, foi adaptada para a luta contra a Primeira Guerra Mundial e posteriormente apropriada pela luta antifascista dos anos 1930 e 1940, sendo esta versão a que se tornou mundialmente famosa. Trata-se de um canto que exalta a luta do partigiano – o guerrilheiro da resistência antifascista – e a justiça de sua causa.

Linda adeus!

Esta manhã, acordei
Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
Esta manhã, acordei
E encontrei o invasor

Oh guerrilheiro, me leve embora
Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
Oh guerrilheiro, me leve embora
Pois sinto que vou morrer

E se morro como guerrilheiro
Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
E se morro como guerrilheiro
Você deve me enterrar

Enterrar lá em cima, na montanha
Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
Enterrar lá em cima na montanha
Embaixo da sombra de uma bela flor

E as pessoas que passarão
Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
E as pessoas que passarão
E dirão: que bela flor

É esta a flor do guerrilheiro
Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
É esta a flor do guerrilheiro
Morto pela liberdade

6. A las barricadas (Resistência armada ao fascismo na Espanha, 1936-1939)

A letra de A las barricadas foi publicada em 1933 na revista anarquista Tierra y Libertad. O texto foi escrito por Valeriano Orobón Fernández, sobre a ária da Varsoviana, canção entoada pelo movimento operário polonês no fim do século XIX, e apropriada mais tarde pelos revolucionários russos em 1905 e em 1917. Orobón Fernandez foi teórico e militante anarcossindicalista, e morreu durante a Guerra Civil Espanhola. Ele era um dentre os cerca de dois milhões de filiados da Confederação Nacional do Trabalho (CNT-AIT), a maior organização anarquista da Espanha.

A revolução social espanhola foi amplamente libertária, a autogestão se impôs nas zonas urbanas e a coletivização nos campos – sobretudo nas regiões de maior presença dos sindicatos anarquistas, como a Catalunha. Mas as “negras tormentas agitavam os ares”, e o golpe militar de Franco lançou a Espanha numa sangrenta guerra civil. A las barricadas é um chamado ao combate contra o fascismo, e se tornou um hino da luta contra as tropas golpistas. O chamado foi, aliás, atendido por revolucionários de todo o mundo, reunidos nas Brigadas Internacionais. Mas, infelizmente, isso não foi o suficiente para superar o exército de Franco, que contou com o apoio das potências capitalistas, notadamente da Alemanha nazista e da Itália fascista. A derrota dos republicanos se deveu também às cisões internas na esquerda. A ascensão dos comunistas aliados a Moscou (e, portanto, a Stalin) se fez à custa do enfraquecimento das vertentes libertárias (como a CNT-AIT) e não alinhadas (como o POUM), debilitando fortemente o lado revolucionário.

Às barricadas

Negras tempestades agitam os ares
nuvens escuras nos impedem de ver,
ainda que nos espere a dor e a morte,
contra o inimigo nos chama o dever.

O bem mais precioso é a liberdade
Há que defendê-la com fé e coragem
Levanta a bandeira revolucionária
Que do triunfo sem cessar nos leva a emancipação*

Em pé povo obreiro à batalha!
Há que derrotar a reação!
Às barricadas! Às barricadas!
Pelo triunfo da Confederação

* Trecho adaptado a partir de outra versão da letra, dado que a original não tem correspondente em português

7. La Cucaracha (Revolução Mexicana, 1910)

Nem todos sabem, mas La Cucaracha, música mundialmente famosa e apropriada para os fins mais diversos, é antes de tudo uma canção revolucionária. Mais precisamente, uma canção bem-humorada para uma revolução com aroma de marijuana. Não se sabe precisar sua origem, mas a melodia parece remeter ao cancioneiro medieval espanhol. Contudo, foi a partir da Revolução Mexicana, iniciada em 1910, que ela se tornou um grande sucesso.

La Cucaracha não tem uma letra definida, intercalando-se o refrão e versos os mais variados, que se adaptam a temas e contextos e podem ser improvisados. O próprio nome, “a barata”, poderia ter sentidos diversos – era uma gíria para a maconha consumida massivamente no México, era o apelido do carro usado pelo revolucionário Francisco Villa, era um nome usado para definir a própria Revolução que, como uma barata em fuga, corria em direções imprevisíveis.

No decorrer da Revolução, muitos versos foram feitos satirizando diversos personagens e situações. Incluímos um deles, que faz referência a Carranza, liderança revolucionária liberal contestada e combatida pelas armas por setores indígenas e populares; e a Francisco Villa (também conhecido como Pancho Villa), que ao lado de Emiliano Zapata foi o personagem mais famoso do lado popular da Revolução. Com bom humor, os rebeldes cantavam que usariam os fartos bigodes de Carranza para decorar o sombrero de Villa.

A Barata

[refrão]
A barata, a barata
Já não pode caminhar
Porque não tem, porque lhe falta
Marijuana pra fumar

[um dos versos do contexto da Revolução]
Com a barba de Carranza
Eu vou fazer uma fita
Pra colocá-la no chapéu
Do senhor Francisco Villa

8. La Semaine sanglante (Comuna de Paris, 1871)

Jean-Baptiste Clément foi um dos insurretos da Comuna de Paris e compôs duas músicas que são associadas a essa revolta: Le temps des cerises e La semaine sanglante. A primeira, mais famosa, é na verdade uma canção de amor, composta alguns anos antes, e ulteriormente dedicada a uma enfermeira assassinada na repressão à Comuna. A segunda foi composta durante a chamada “semana sangrenta” e representa a repressão violenta ao movimento, o massacre dos insurretos pelas tropas do exército francês, que deixou mais de 20 mil mortos. O próprio Clément foi condenado à morte, mas conseguiu escapar e passou dez anos na clandestinidade. Mais a tarde ele contaria: “Eu ainda estava em Paris quando fiz essa canção. (…) Do local onde me haviam abrigado (…) ouvia todas as noites tiros de fuzil, prisões, gritos de mulheres e crianças. Era a reação vitoriosa que continuava sua obra de extermínio”.

Se a cidade de Paris pôde ser chamada de a “capital do século XIX” (Benjamin), isso não se deve apenas à sua importância cultural. Paris foi também a capital das revoluções. Entre 1789 e 1968, ela foi a cidade “de um povo que por dez vezes enchera suas ruas de barricadas e pusera em fuga seus reis” (Debord). A mais radical dessas revoluções foi sem dúvida a Comuna de Paris, a única que não se deixou trair, que não foi apropriada pelas classes dominantes, que não deu lugar a um novo governo autoritário. E por isso ela enfrentou também a repressão mais violenta de todas. A música de Clément nos conta essa repressão, mas não deixa de afirmar a necessidade da revolta. Da Comuna resta ainda a vontade da revanche, e a promessa de que “os maus dias acabarão”.

A semana sangrenta

Além de moscas e policiais
Não se veem pelos caminhos
Mais que velhos tristes em lágrimas
Viúvas e órfãos
Paris transpira miséria
Mesmo os felizes tremem
A moda está no conselho de guerra
E os pavimentos estão ensanguentados

Sim, mas…
Nada está decidido
Esses dias ruins acabarão
E cuidado com a revanche
Quando todos os pobres se engajarem

Batem, acorrentam e fuzilam
Todos aqueles que pegam ao acaso
A mãe ao lado de sua filha
A criança nos braços do velho
Os castigos da bandeira vermelha
São substituídos pelo terror
De todos os crápulas
Serventes de reis e imperadores

Eis-nos rendidos aos jesuítas
Aos Mac Mahon aos Dupanloup
Vai chover água benta
Os ofertórios vão encher de dinheiro
A partir de amanhã em júbilo
E a igreja de São Eustáquio e a Ópera
Vão concorrer mais uma vez
E as prisões de trabalho forçado ficarão cheias

Amanhã as Manons, as Lorettes
E as damas dos belos subúrbios
Colocarão em suas lapelas
Fuzis e tambores
Todos vestirão o tricolor
A moda do dia e as fitas
Enquanto o herói Pandore
Fará fuzilar nossos filhos

Amanhã os policiais
Florescerão sobre as calçadas
Orgulhosos de seus serviços
E a pistola a tiracolo
Sem pão, sem trabalho, sem armas
Nós seremos governados
Por moscas e policiais
Tiranos e padres

O povo na coleira da miséria
Será ele sempre esmagado?
Até quando os homens de guerra
Vão ter a dianteira?
Até quando a Santa Camarilha
Nos tomará por gado ruim?
Até quando enfim a República
Da justiça e do trabalho?

9. The Smashing of the Van (Resistència irlandesa à dominação inglesa, 1867)

Elaborada em meio a uma das muitas ondas de rebeldia irlandesa contra a dominação inglesa, The smashing of the van narra a história de três jovens condenados à morte após resgatarem duas lideranças presas. O ataque a um comboio de transporte de detentos ocorreu em setembro de 1867 e resultou na morte de um policial inglês. Segundo a defesa dos irlandeses, a morte foi acidental, fruto da tentativa de arrombar a fechadura do veículo a tiros. Condenados à forca, os três rebeldes ficaram conhecidos como os mártires de Manchester – cidade onde ocorreu a ação.

A canção recebeu outra versão quando a história do resgate de presos e da repressão se repetiu, no começo do século XX, com membros do Exército Republicano Irlandês (IRA) e se tornou um dos principais hinos da luta contra o domínio inglês. Disponibilizamos aqui a versão da banda folk The Wolfe Tones, mas ela também foi gravada pelo grupo Chumbawamba. The smashing of the van conjuga elementos da religiosidade e do nacionalismo popular da Irlanda com um apelo de caráter universal – o da legitimidade da resistência à tirania por via da ação direta.

A destruição do camburão*

Prestem atenção bravos irlandeses e ouçam um tempinho
Vou lhes cantar os louvores aos filhos da Ilha da Erin
Daqueles heróis corajosos que correram voluntariamente
Para libertar dois trevos irlandeses de um camburão Inglês

Meu rapazes pela liberdade, vamos todos com a mão no coração.
Que o Senhor tenha misericórdia dos garotos que ajudaram a destruir o camburão

Em 18 de Setembro, era um ano terrível
Quando a dor e a emoção correram por toda Lancashire
Em uma reunião dos garotos irlandeses cada homem se ofereceu
Para libertar os prisioneiros irlandeses do camburão

Em uma manhã em Manchester aqueles heróis concordaram
Seus líderes, Kelly e Deasy, deveriam ter sua liberdade
Brindaram à Irlanda e logo fizeram o plano
Encontrar os prisioneiros na estrada, tomar e destruir o camburão

Com destemida coragem aqueles heróis foram e logo o camburão parou
Eles tiraram os guardas de trás e da frente e então quebram em cima
Mas ao estourar a tranca, eles sem querer mataram um homem
Então três homens deverão morrer na forca por destruir o camburão

Então agora amáveis amigos vou concluir, eu acho que seria certo
Que todos os Irlandeses sinceros se unissem
Juntos devemos nos compadecer, amigos, e fazer o melhor que pudermos
Para manter as lembranças sempre verdes dos garotos que destruíram o camburão

* Traduzimos como “camburão” para não perder o sentido de que se tratava de um veículo para transporte de prisioneiros

10 – The Triumph of General Ludd (Luddismo, 1812)

Esta canção é encontrada com algumas variações, sendo provavelmente composta no auge da rebeldia dos ludditas, no início da década de 1810. Trabalhadores têxteis que se voltavam contra a maquinaria moderna e a alienação do trabalho, os ludditas invadiam as fábricas com os rostos cobertos e no escuro da noite, destruindo e sabotando as novas máquinas. Muitos dos textos que deixaram (como petições ao parlamento e ameaças a industriais caso não se livrassem dos equipamentos) são assinados por Ned Ludd (ou General Ludd). Personagem que se situa entre o mito e a história, Ludd era o novo Robin Hood dos trabalhadores ingleses. A reação do Estado ao luddismo foi de uma violência atroz, incluindo a aprovação da pena de morte para o crime de destruição de máquinas.

A versão que indicamos é a do álbum English Rebel Songs 1381–1984 da banda Chumbawamba. Para quem quiser conhecer as tradições musicais rebeldes da Inglaterra, recomendamos o álbum como um todo, que inclui outra canção desta lista – The smashing of the van.

O Triunfo do General Ludd

Sem mais cantorias de suas velhas rimas sobre o velho Robin Hood
Suas proezas eu pouco admiro
Eu vou cantar as conquistas do General Ludd
Agora, o herói de Nottingham Shire
Esses motores de dano foram sentenciados à morte
Por unanimidade de votos do sindicato
E Ludd que não pode desafiar a decisão
Foi feito o grande carrasco
Quer guardado por soldados ao longo da rodovia
Ou protegido de perto num quarto
Ele os faz estremecer de noite e de dia
E nada pode suavizar sua destruição
E todo o time de humildes não deve mais ser oprimido
E Ludd deve embainhar sua espada conquistadora
E seja sua reivindicação prontamente atendida com reparação
Que a paz deve ser rapidamente restaurada
Deixe o sábio e o grande prestar sua ajuda e aconselhar
Nunca antes a sua ajuda retirar
Até que o trabalho árduo ao preço antigo
Esteja estabelecido por costume e lei.

Hino à Rua

eric-drooker

 

Primeira ação do coletivo Baderna Midiática, o Hino à Rua é fruto da experiência das grandes manifestações de junho de 2013. A música é inspirada na canção da resistência italiana ao fascismo I ribelli della montagna e é acompanhada, em sua versão completa, por uma poesia que expressa muito do que vivemos e sentimos desde então. Contra a violência do Estado, a manipulação midiática e todas as formas de opressão, defendemos a ocupação das ruas por um mundo mais livre e igualitário.

O vídeo está disponível nas versões completa e compacta, com legendas em quatro idiomas. Postamos aqui no blog a letra da canção e a poesia em português, espanhol, inglês e francês, além da cifra para violão. Também indicamos os links para baixar o video em formato avi e a música em MP3 (você também pode ouvir online via SoundCloud). As repercussões da canção e do video em outras mídias e nas ruas podem ser acompanhadas aqui.

 

Nas mídias e nas ruas

Hino à Rua na Revista Forum

Hino à Rua na Caros Amigos

Hino à Rua no Brasil de Fato

Hino à Rua no Blog da Maria Frô

Referência ao Hino à Rua na Marcha das Vadias de Alagoas

Referência ao Hino à Rua na Marcha das Vadias de Alagoas

Referência ao Hino à Rua na Marcha das Vadias de Alagoas

Referência ao Hino à Rua na Marcha das Vadias de Alagoas

 

 

Projeção do Hino à Rua no Manifesta (Brasília, 09/09/2013)

Projeção do Hino à Rua no Manifesta (Brasília, 07/09/2013)

Projeção do Hino à Rua no Manifesta (Brasília, 09/09/2013)

Projeção do Hino à Rua no Manifesta (Brasília, 07/09/2013)

Hino à Rua – Letra completa

Ela é mais que o asfalto onde eu piso
Ela é o caminho que nos leva à liberdade
Quando os povos oprimidos a conquistam
É a parte mais bonita da cidade
É ela quem escuta os nossos gritos
O riso, o choro, o lamento de dor
As bombas, disparos, os golpes brutais
De quem pratica a guerra e fala em paz

[Refrão]
Ela é dos cantos, das batucadas
É o povo unido quem a detém
É das bandeiras, das barricadas
Ela é de todos porque é de ninguém
Não é dos chefes, nem dos patrões
Não é uma posse, não é um bem
Nem dos Estados, nem das nações
Ela é de todos porque é de ninguém

Rua. Segundo lar
Primeiro campo de futebol

Te querem apenas caminho
pra quem te depreda com fumaça preta

Te querem assunto de urbanistas
engenheiros
criminologistas

Eu te quero assunto de poetas
De amantes
e de povos rebelados

Te quero
dos que te construíram e que hoje não te podem desfrutar
Porque foram descartados, porque foram despejados

Toda ocupação que resiste no centro da cidade
tem um pouco de quilombo

Ameaça ao latifúndio urbano
Monocultura cinza movida a petróleo e suor
O suor de quem vem nos trens lotados

Todo busão que vem cheio das quebradas, que vem cheio de catracas
tem um pouco de navio negreiro
Transporte desumano de carne humana
Pra ser moída e desossada no trabalho

Rua, você é de todos
Que fora do trabalho são suspeitos
De roubar, de depredar, de discordar
Ou de não contribuir pro crescimento do Produto Interno Bruto

Quem veste um capuz e extermina na favela é um pouco capitão-do-mato

Rua
Te quero das mulheres ensinadas desde cedo que só podem brincar dentro de casa
porque a rua é perigosa, porque a rua é violenta
porque a rua é dos meninos que não sabem respeitar

Rua eu te conheço, quem te faz uma ameaça às meninas e mulheres
É a mesma opressão que torna as casas inseguras
Mais que as ruas

A rua é de todos os amores
É daqueles que tiveram que ocupa-la
pelo direito de existir

Todo discurso moralista que se opõe à igualdade
Que se opõe à autonomia sobre o corpo
É um pouco tribunal da Inquisição

A rua não comporta privilégios
Não tem dono nem tem preço

É como o vento, o sol, a chuva
o calor, as nuvens, cores
minha alegria e minhas dores

Por isso hoje eu vim pra rua

13 de junho de 2013, noite fria
Ocupamos a rua para devolver o que é dela de direito
O lugar da assembleia mais legítima

Na televisão 5 mil vândalos sem causa interrompiam o trânsito

Nas ruas
15, 20 ou 30 mil lutavam por uma vida sem catracas

Nos chamavam “loucos” como chamavam os balaios que encaravam o poder de peito aberto
em um país construído sobre corpos, assentado sobre o sangue
Dos explorados

Nos chamavam “criminosos violentos” como chamam violento ao rio que tudo arrasta
Mas não as margens que o oprimem

Criminosos também eram chamados os luditas
panteras negras, zapatistas, feministas
milicianos da Espanha, guerrilheiros da América Latina

insurretos de Istambul, do Cairo e de Atenas
de Buenos Aires, de Paris, de Cochabamba
de Pequim, de Porto Príncipe, de Gaza
de Londres, de Soweto, de Lisboa

Trabalhadores anarquistas da Itália ou de São Paulo
quilombolas da Jamaica ou da Bahia
rebeldes e poetas de todas as periferias

Loucos, criminosos, estudantes
Nos querem dentro de hospícios, de cadeias, de escolas
Longe das ruas

Querem as grades, os muros, as cercas, as catracas
Uma cidade em que circulam carros, mas onde as pessoas
São confinadas

Jornalistas, doutores, políticos não podem entender
Que democracia é muito mais que apertar um botão de vez em quando

Que estamos dispostos a fazer a nossa história mesmo nas piores condições
Que não temos ilusões, nem vivemos fantasias
Somos aqueles que se movem
E por isso sentimos o peso das correntes que nos prendem

Eles podem mas não querem entender
Que já sabemos que o Estado e o capital são gêmeos siameses
Vivem brigando, mas partilham o mesmo sangue e o mesmo coração
Nasceram juntos e juntos vão morrer pelas mãos dos explorados

Que já sabemos que o estado de exceção em que vivemos
É na verdade regra geral
Que essa paz que oferecem não é nada além de medo

Que passado este medo não haverá quem defenda suas mansões
E não vai faltar quem abra as portas pelo lado de dentro

Que em tempo de desordem sangrenta e confusão organizada
nada nos parece natural
Nada nos parece impossível de mudar

Que agora as mentiras da TV são motivos de piada
Que o rei está nu e sua foto tá nas redes sociais

Que foi nos organizando que nós desorganizamos
E que é desorganizando
que vamos nos organizar

Nada do que venha a acontecer vai tirar de nós o sentimento
de ter tomado o céu de assalto
de ter presenciado quando a vida surgiu de uma nuvem de gás lacrimogêneo

Arrancamos a política das malhas do mundo profano

Nossas palavras dedicamos a
Ademir, André, Carlos Eduardo
Cleonice, Douglas, Eraldo
Fabrício, Igor, Jonatha
José Everton, Lucas, Luiz
Marcos, Renato, Roberto, Valdinete

E a todas as vítimas anônimas da violência do Estado
em sua defesa feroz do capital

Na rua nenhum monumento é inocente
Nela os que tombaram ressurgem pra lutar ao nosso lado

Os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer
Combatemos para que não morram a morte do esquecimento
Combatemos para impedir o inimigo de vencer

Hino à Rua – Cifra

Intro: Em – D – Em – D – C – Bm – Em – D

Em                         D
Ela é mais que o asfalto onde eu piso

Em                        D
Ela é o caminho que nos leva à liberdade

C                    Bm
Quando os povos oprimidos a conquistam

Em                    C
É a parte mais bonita da cidade

Em                         D
É ela quem escuta os nossos gritos

Em                  D
O riso, o choro, o lamento de dor

C                    Bm
As bombas, disparos, os golpes brutais

Em              D       C       Em
De quem pratica a guerra e fala em paz

[Refrão]

G               D
Ela é dos cantos, das batucadas

C             Em
É o povo unido quem a detém

G                D
É das bandeiras, das barricadas

Em                    C
Ela é de todos porque é de ninguém

G                 D
Não é dos chefes, nem dos patrões

C               Em
Não é uma posse, não é um bem

G                D
Nem dos Estados, nem das nações

Em                   C
Ela é de todos porque é de ninguém

Intro 2x : Em – D – Em – D – C – Bm – Em – D

Em                         D
Ela é mais que o asfalto onde eu piso

Em                        D
Ela é o caminho que nos leva à liberdade

C                    Bm
Quando os povos oprimidos a conquistam

Em                    C
É a parte mais bonita da cidade

Em                         D
É ela quem escuta os nossos gritos

Em                  D
O riso, o choro, o lamento de dor

C                    Bm
As bombas, disparos, os golpes brutais

Em              D       C       Em
De quem pratica a guerra e fala em paz

[Refrão]

G               D
Ela é dos cantos, das batucadas

C             Em
É o povo unido quem a detém

G                D
É das bandeiras, das barricadas

Em                    C
Ela é de todos porque é de ninguém

G                 D
Não é dos chefes, nem dos patrões

C               Em
Não é uma posse, não é um bem

G                D
Nem dos Estados, nem das nações

Em                   C
Ela é de todos porque é de ninguém

Intro: Em – D – Em – D – C – Bm – Em – D

Em              D
Ela é dos cantos, das batucadas

Em            D
É o povo unido quem a detém

C                Bm
É das bandeiras, das barricadas

Em                   D
Ela é de todos porque é de ninguém

Em                D
Não é dos chefes, nem dos patrões

Em              D
Não é uma posse, não é um bem

C                Bm
Nem dos Estados, nem das nações

Em                   D
Ela é de todos porque é de ninguém

Hymne à la Rue, en Français

Elle est plus que l’asphalte où je marche
Elle est le chemin qui nous porte à la liberté
Quand les peuples opprimés la conquièrent
Elle est la partie la plus belle de la ville
C’est elle qui entend nos cris
Le rire, le pleur, le cri de douleur
Les bombes, les tirs, les coups brutaux
De qui fait la guerre et parle de la paix

Elle est aux chants, aux tambours
C’est le peuple uni qui la détient
Elle est aux drapeaux, aux barricades
Elle est à tous, parce qu’elle n’appartient à personne
Elle n’est pas aux maîtres, ni aux patrons
Elle n’est pas une possession, ni un bien
Ni aux États, ni aux nations
Elle est à tous, parce qu’elle n’appartient à personne

Rue. Second chez-soi.
Premier terrain de foot.

On veut que tu sois juste un chemin
Pour qui te ruine avec de la fumée noire

On veut que tu sois un sujet des urbanistes,
Des ingénieurs
Des criminologues

Je veux que tu sois un sujet des poètes,
Des amants,
Et des peuples insurgés

Je veux que tu sois
À ceux qui t’ont bâtie et qui ne peuvent pas en profiter
Parce qu’ils ont été rejetés, chassés

Toute occupation qui résiste dans le centre ville
A quelque chose de quilombo

Elle menace la grande propriété urbaine
Monoculture grise nourrie de pétrole et sueur
La sueur de qui arrive dans les trains affolés

Chaque bus qui arrive affolé des banlieues, plein de tourniquets
A quelque chose de bateau négrier
Transport inhumain de chair humaine
Pour être hachée et désossée dans le travail

Rue, tu es à tous
À ceux qui hors du travail sont soupçonnés
De voler, de vandaliser, de contester
Ou de ne pas contribuer pour la croissance du produit interne brut

Celui qui porte la capuche pour tuer dans les favelas a quelque chose de chasseur d’esclaves

Rue,
Je veux que tu sois aux femmes qui ont toujours appris à ne jouer que dans la maison
Parce que la rue est dangereuse, violente
Parce que la rue est des garçons qui ne respectent pas

Rue, je te connais, ce qui te fait une menace aux femmes et aux jeunes filles
Est la même oppression qui fait les maisons plus dangereuses
Plus qu’aucune rue

La rue est à tous les amours
Elle est à ceux qui ont dû l’occuper
Pour le droit d’exister

Tout le discours moraliste qui s’oppose à l’égalité
Qui s’oppose à l’autonomie du corps
Est une sorte de tribunal de l’inquisition

La rue ne comporte pas des privilèges
Elle n’a pas de prix ni de propriétaire

Elle est comme le vent, le soleil, la pluie
La chaleur, les nuages, les couleurs
Ma joie et mes douleurs.

C’est pour ça qu’aujourd’hui je suis descendu dans la rue

13 juin 2013, nuit froide
On a pris la rue pour lui redonner ce qui lui appartient de droit
Le lieu de la plus légitime assemblée

Dans la télé 5 mil vandales sans cause interrompaient le trafic

Dans les rues…
15, 20 ou 30 mille personnes luttaient pour une vie sans tourniquets

On nous appelait des « fous » comme on le faisait pour les « balaios », vanniers qui livraient combat ouvert au pouvoir en 1838
Dans un pays bâti sur les corps, assis sur le sang
Des exploités

On nous appelait des « criminels violents » comme on appelle violente un fleuve qui tout emporte
Mais non pas les rives que l’enserrent

Des criminels, ainsi étaient appelés aussi les luddites,
Les Black panthers, les zapatistes, les féministes,
Les milices espagnoles, les guérillas d’Amérique Latine
Les insurgés d’Istanbul, du Caire et d’Athènes
De Buenos Aires, Paris, Cochabamba
Péquin, Porto Principe, Gaza
Londres, Soweto, Lisbonne

Les travailleurs anarchistes de l’Italie ou de São Paulo
Les habitants des quilombos de Jamaïque ou de Bahia
Les rebelles et les poètes de toutes les périphéries

Des fous, des criminels, des étudiants
On veut nous enfermer dans les hôpitaux psychiatriques, dans les prisons, dans les écoles
Loin de la rue

On veut des grilles, des murs, des barreaux, des tourniquets
Une ville où roulent les voitures, mais où les gens
Sont renfermés

Les journalistes, les docteurs, les hommes politiques ne peuvent pas comprendre
Que la démocratie est bien plus que glisser une enveloppe dans une urne de temps en temps

Que nous sommes prêts à faire notre histoire même dans les pires des conditions
Que nous n’avons pas d’illusion, ni vivons-nous de fantaisies
Nous sommes ceux qui bougent
Et que pour ça nous sentons le poids des chaînes qui nous lient

Ils peuvent mais ne veulent pas comprendre
Que nous savons déjà que l’État et le capital sont des jumeaux conjoints
Ils se disputent souvent, mais ils partagent le même sang et le même cœur
Ils sont nés ensemble et ils mourront ensemble par les mains des exploités

Que nous savons déjà que l’état de siège dans lequel nous vivons
Est la règle générale
Que cette paix que l’on nous offre n’est rien d’autre que de la peur

Qu’une fois finie cette peur, il n’y aura personne qui puisse défendre leurs grandes maisons
Et il ne manquera pas ceux qui ouvriront les portes par l’intérieur

Que dans un temps de désordre sanglant et de confusion organisée,
Rien ne nous semble naturel
Rien ne nous semble impossible de changer

Que maintenant on se moque des mensonges de la télé
(Un policier qui casse les vitres de sa propre voiture de police)
Que le roi est nu et sa photo est sur les réseaux sociaux

Qu’en nous organisant nous avons désorganisé
Et que c’est en désorganisant
Que nous allons nous organiser

Rien qui puisse arriver ne va nous ôter le sentiment
D’être montés à l’assaut du ciel
D’avoir vu surgir la vie à travers la fumée du lacrymogène

On a arraché la politique aux mailles du monde profane

Nos mots sont dédiés à
Ademir, André, Carlos Eduardo
Cleonice, Douglas, Eraldo
Fabrício, Igor, Jonatha
José Everton, Lucas, Luiz
Marcos, Renato, Roberto, Valdinete

Et à toutes les victimes anonymes de la violence d’État
Dans la défense féroce du Capital

Dans la rue un monument ne peut pas être innocent
Dans la rue ceux qu’y sont tombés reviennent pour lutter avec nous

Si l’ennemi triomphe, même les morts ne seront pas en sûreté
Nous combattons pour qu’ils ne meurent pas la mort de l’oubli
Nous combattons pour empêcher la victoire de l’ennemi

Anthem to the Street, in English

She is more than the asphalt floor where I step
She is the path that leads us to freedom
When the oppressed people conquer her
She is the most beautiful part of the city
She is the one who hears our screams
The laughter, the crying, the moan of pain
The bombs, shootings, and brutal blows
Of those who practice war and talk about peace

[Chorus]
She is of the singing, of the drumming
It is the united people who holds her
She is of the flags, of the barricades
She is of everyone because she is of no one
She is neither of the chiefs, nor of the bosses
She is not a possession, she is not a property
Neither of the states nor of the nations
She is of everyone because she is of no one

Street. My second home
First soccer pitch.

They want you only as a path
For those who prey you with black smoke.

They want you as a subject of planners,
Engineers,
Criminologists.

I want you as a subject of poets
Of lovers
And of people rebelling.

I want you
Of everyone who built you but who can’t enjoy you now
Because they were discarded, ‘cause they were dumped.

Every occupation that stands in the downtown area
Has a bit of quilombo in it

Threat to the urban landlordism
Gray monoculture moved by oil and sweat
The sweat of those who come in crowded trains

Every bus that comes crowded from the ghettos, that comes full of turnstiles
Has a bit of slave ship in it
Inhuman transportation of human flesh
To be grinded and deboned at work

Street, you are from all of those
Who outside work are suspects
Of stealing, of plundering, of disagreeing
Or not contributing to the growth of Gross Domestic Product

It was in your squares that a long time ago they raised
Pillories and stables

One who wears the hood and exterminates people in the slum is a bit of a slavehunter

Street,
I want you to be of the women taught since early that they can only play indoors
Because the street is dangerous, ‘cause the street is violent
Because the street is of the boys who don’t know how to respect them

Street, I know you, who turns you into a threat to girls and women
Is the same oppression that makes the houses unsafe
More than the streets

The street is of all the loves
It’s of those who had to occupy it
In order to earn the right to exist

Every moralist discourse which opposes to equality
Which opposes to autonomy over the body
Is a bit of Inquisition Tribunal

The street does not carry privileges,
It has no owner and no price

It’s like the wind, the sun, the rain
The heat, the clouds, the colors
My joy and my pain.

That’s why I came to the street today

June 13, 2013, cold night…
We occupied the street to return what belongs rightfully to it
The place of the most legitimate assembly

On the TV, five thousands vandals without a cause interrupt the traffic

On the streets…
15, 20 or 30 thousands fought for a life without turnstiles

They call us “madmen” just as they called the “balaios” [basket makers – rebels of Maranhão, Brazil, 1838-1840] who faced power head to head
In a country built on bodies, seated on the blood
Of the exploited ones

We were called “violent criminals” as they call violent the river that drags all
But not the riverbanks that overwhelm it

Criminals were also called the Luddites,
Black Panthers, Zapatistas, Feminists
Spain’s militia, Latin America’s guerrillas

The insurgents of Istanbul, Cairo and Athens
Buenos Aires, Paris, Cochabamba
Beijing, Port au Prince, Gaza
London, Soweto, Lisbon

Anarchist workers from Italy or São Paulo
Maroons from Jamaica or from Bahia
Rebels and poets from all peripheries

Madmen, criminals, students
They want us within hospices, prisons, schools
Away from the streets

They want the grids, walls, fences, turnstiles
A city where the cars move, but where people
Are confined

Journalists, doctors, politicians cannot understand
That democracy is much more than just pushing a button from time to time

That we’re willing to make our own history even in the worst conditions
That we have no illusions, nor live in fantasies
That we’re those who move
And so we feel the weight of the chains that seize us

They can, but don’t want to understand
That we already know that the State and the Capital are Siamese twins
They always fight, but they share the same blood and the same heart
They were born together and together they’ll die from the exploited’s hands

That we already know that the state of exception in which we live
It’s actually the rule
That this peace they offer us is nothing but fear

That when this fear passes no one will defend their mansions
And that there’ll always be someone to open the doors from the inside

That in times of bloody disorder and organized turmoil,
Nothing seems natural to us
Nothing seems impossible to change

Now that the TV’s lies are a laughingstock
That the king is naked and his photos are on social networks

That it was in organizing ourselves that we disorganize
And that is disorganizing
That we’ll organize ourselves

Nothing that may happen will take away from us the feeling
Of having stormed heaven
Of having witnessed the life emerging from a cloud of tear gas

We pulled politics out of the profane world’s meshes

Our words are dedicated to
Ademir, André, Carlos Eduardo
Cleonice, Douglas, Eraldo
Fabrício, Igor, Jonatha
José Everton, Lucas, Luiz
Marcos, Renato, Roberto, Valdinete
And to all the anonymous victims of the state’s violence
In its fierce defense of capital

On the street no monument is innocent
Those who died in it reappear to fight on our side

The dead will not be safe if the enemy wins
We fight so they do not die the death of oblivion
We fight to prevent the enemy to win

Himno a la Calle, en Español

Ella es más que el asfalto donde yo camino
Ella es el camino que nos lleva a la libertad
Cuando los pueblos oprimidos la conquistan
Es la parte más hermosa de la ciudad
Es ella quien escucha nuestros gritos
La risa, el llanto, el lamento de dolor
Las bombas, disparos, los golpes brutales
De quien practica la guerra y habla en paz

[estribillo]

Ella es de los cantos, de los tamboriles
Es el pueblo unido quien la detiene
Es de las banderas, de las barricadas
Ella es de todos porque es de nadie
No es de los jefes, ni de los patronos
No es una posesión, no es un bien
Ni de los Estados, ni de las naciones
Ella es de todos porque es de nadie

Calle. Segundo hogar
Primero campo de fútbol
Te quieren sólo camino
para quien te depreda con humo negro
Te quieren asunto de urbanistas,
ingenieros,
criminalistas.

Yo te quiero asunto de poetas
De amantes
Y de los pueblos rebelados.

Te quiero
De los que te construyeron y que hoy no te la pueden desfrutar
Porque fueron descartados, porque fueran echados

Toda ocupación que resiste en el centro de la ciudad
tiene un poco de quilombo

Amenaza al latifundio urbano
Monocultivo gris movido a petróleo y sudor
El sudor de quien viene en los trenes llenos

Todo autobús que viene lleno de las periferias, que viene lleno de torniquetes
tiene un poco de buque negrero
Transporte deshumano de carne humana
para ser molida y deshuesada en el trabajo

Calle, usted es de todos
Que fuera del trabajo son sospechosos
De robar, de depredar, de discordar
O de no contribuir para el crecimiento del Producto Nacional Bruto

Quien viste una capucha y extermina en los barrios bajos es un poco capitán del mato

Calle,
Te quiero de las mujeres enseñadas desde temprano que sólo pueden jugar dentro de casa
porque la calle es peligrosa, porque la calle es violenta
porque la calle es de los chicos que no saben respetar
Calle yo te conozco, quien te hace una amenaza a las chicas y mujeres
Es la misma opresión que torna las casas inseguras
Más que las calle

La calle es de todos los amores
Es de aquellos que tuvieran que ocuparla
por el derecho de existir

Todo discurso moralista que se opone a la igualdad
Que se opone a la autonomía sobre el cuerpo
Es un poco tribunal de la Inquisición

La calle no comporta privilegios
No tiene dueño ni precio

Es como el viento, el sol, la lluvia
El calor, las nubes, los colores
mi alegría es mi dolores.

Por eso hoy yo vine para calle

El 13 de junio de 2013, noche fría
Ocupamos la calle para devolver el que es de ella de derecho
El lugar de la asamblea más legítima

En la televisión 5 mil vándalos sin causa interrumpían el tránsito

En las calles…
15, 20 o 30 mil luchaban por una vida sin torniquetes

Nos llamaban “locos” como llamaban los balaios que encaraban el poder de pecho abierto
en un país construido sobre cuerpos, asentado sobre la sangre
De los explotados
Nos llamaban “criminosos violentos” como llamaban violento al río que todo arrastra
Pero no los márgenes que lo oprimen

Criminosos también eran llamados los luditas
panteras negras, zapatistas, feministas
milicianos de España, guerrilleros de Latino América

insurrectos de Estambul, del Cairo y de Atenas
de Buenos Aires, de Paris, de Cochabamba
de Pekín, de Puerto Príncipe, de Gaza
de Londres, de Soweto, de Lisboa

Trabajadores anarquistas de Italia o de San Pablo
quilombolas de Jamaica o de Bahia
rebeldes y poetas de todas las periferias

Locos, criminosos, estudiantes
Nos quieren dentro de manicomios, de las cárceles, de las escuelas
Lejos de las calles

Quieren las rejas, los muros, las vallas, los torniquetes.
Una ciudad en que circulan coches, pero donde las personas
Son encerradas

Periodistas, doctores, políticos no pueden entender
Que democracia es mucho más que apretar un botón de vez en cuando

Que tenemos ganas de hacer nuestra historia mismo en las peores condiciones
Que no tenemos ilusiones, ni vivimos fantasías
Somos aquellos que se mueven
Y por eso sentimos el peso de las cadenas que nos encierran

Ellos pueden pero no quieren entender
Que ya sabemos que el estado y el capital son gemelos siameses
Viven peleando, pero comparten la misma sangre y el mismo corazón
Nacieron juntos y juntos van a morir por las manos de los explotados

Que ya sabemos que el estado de excepción en que vivimos
Es en realidad regla general
Que esa paz que ofrecen no es nada además del miedo

Que pasado este miedo no habrá quien defienda su palacio
Y no va a faltar quien abra las portas por el lado de dentro

Que en tiempo de desorden sangrenta y confusión organizada
nada nos parece natural
Nada nos parece imposible de cambiar

Que ahora las mentiras de la tele son motivos de chistes
Que el rey está desnudo y su foto está en las redes sociales

Que fue nos organizando que nos desorganizamos
Y que es desorganizando
que vamos nos organizar

Nada de lo que venga a ocurrir va a sacar de nosotros el sentimiento
de tener tomado el cielo de golpe
de tener presenciado cuando la vida surgió de una nube de gas lacrimógeno

Arrancamos la política de las mallas del mundo profano

Nuestras palabras dedicamos a
Ademir, André, Carlos Eduardo
Cleonice, Douglas, Eraldo
Fabrício, Igor, Jonatha
José Everton, Lucas, Luiz
Marcos, Renato, Roberto, Valdinete

Y a todas las víctimas anónimas de la violencia del Estado
en su defensa feroz del capital

En la calle ningún monumento es inocente
En ella los que tumbaron resurgen para luchar al nuestro lado

Los muertos no estarán seguros si el enemigo vencer
Combatiremos para que no mueran la muerte del olvido
Combatiremos para impedir el enemigo de vencer