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  • Eles também cantaram um dia: 10 canções, 10 revoluções

    Eu tenho certeza: eles também cantaram um dia!
    Chico Science

    Desde junho dezenas de músicas foram lembradas ou criadas por inspiração da experiência viva da tomada das ruas em todo o país. O Hino à Rua, feito pelo coletivo Baderna Midiática, é apenas uma dentre outras canções, como esta e esta. É claro que também surgiram produções puramente mercadológicas, sem qualquer relação com o movimento que tomou as ruas, ou ainda aquelas que, bancadas pela grande mídia, procuram arrancar das manifestações seu espírito contestador. Mas existe hoje, como existiu em todos os momentos como este, a resistência do movimento popular contra os que querem impor suas bandeiras, seus símbolos e suas canções.

    O que importa lembrar é que desde que há revoluções e insurreições populares as canções estão presentes a animar a luta. Uma mostra disso está na lista abaixo, na qual incluímos 10 músicas acompanhadas por uma breve apresentação e pela letra traduzida para o português. A seleção inclui apenas canções que são inseparáveis de momentos revolucionários ou insurrecionais, seja porque foram feitas em meio às batalhas, seja porque inspiraram os que lutaram. Começamos nosso percurso na Insurreição de Istambul, ocorrida pouco antes da tomada das ruas no Brasil, e o concluímos mais de 200 anos atrás. A lista poderia ser muito maior, pois ao que parece não há revolução que não se expresse musicalmente. 

    Tem outras sugestões para a lista? Deixe seu comentário!

    1. Tencere tava havasi (Insurreição de Istambul, 2013)

    Uma das belíssimas canções que surgiram dos protestos recentes em Istambul, Tencere tava havasi (“O som das panelas e frigideiras”) foi composta e gravada numa performance de rua pelo grupo Kardeş Türküler. Formado há 20 anos por músicos dos mais diversos grupos étnicos da Turquia (como curdos, árabes e armênios), o grupo sempre teve como objetivo a defesa da diversidade através da música. Em meio à dura repressão do primeiro semestre de 2013, ofereceram aos manifestantes de Istambul e ao mundo uma canção maravilhosa.

    Tencere tava havasi trata do movimento que teve início como resistência à derrubada de um parque para a construção de um shopping center. Além do ataque a um espaço frequentado pela juventude, o movimento reagia a uma série de leis arbitrárias que em parte estavam ligadas à “bancada islâmica” (a “bancada evangélica” deles), como é o caso da proibição de venda de bebida apos as 22h. Por isso a música diz que “eles venderam nossos bosques” e também critica “decretos e ordens obstinadas”. O refrão “Venha devagar, o chão está molhado” faz referência a uma das principais armas usadas pela repressão: os jatos de água lançados para derrubar as multidões.

    No vídeo, chama atenção também a referência aos pinguins. A razão disso é interessante. No dia em que as manifestações cresceram tanto que não dava mais para a mídia ignorá-las, diversas emissoras cancelaram os telejornais para não ter que mostrar que o país estava tomado por uma insurreição popular. Um deles, a CNN-Turquia decidiu colocou um documentário sobre a vida dos pinguins no lugar do telejornal. A atitude da midia virou piada e os manifestantes passaram a dizer que eles eram os pinguins, ou a resistência da Antártida.

    O som das panelas e frigideiras
    Chega de declarações inconsistentes e proibições
    Chega de decretos e ordens obstinadas
    Oh não, já tivemos o suficiente
    Oh não, nós realmente estamos fartos
    Quanta arrogância! Quanto ódio!
    Venha devagar, o chão está molhado

    Eles não podiam vender suas sombras
    Então ele venderam os bosques
    Eles derrubaram, fecharam cinemas e praças

    Abrigado em shopping centers
    Eu não me sinto como se atravessasse esta ponte
    O que aconteceu com nossa cidade?
    Está repleta de edifícios

    Oh, amada Istambul
    Deitada adoecida
    Sua beleza arruinada
    Quanta desgraça, quanto gás, que luto é este?
    Tudo está derrubado pelo chão
    O que aconteceu com você?
    Me diga, me diga!
    Não quero você deste jeito.
    Não, eu não quero

    Oh não, já tivemos o suficiente
    Oh não, nós realmente estamos fartos
    Quanta arrogância! Quanto ódio!
    Venha devagar, o chão está molhado

    2. Kelmti Horra (Insurreição Tunisina, 2011-2012)

    A canção Kelmti Horra (“Minha palavra é livre”) foi composta anos antes da insurreição que eclodiu na Tunísia nos últimos dias de 2011. Porém, foi em meio aos protestos que a música se tornou conhecida, principalmente através de um vídeo de Emel Mathlouthi cantando em meio aos manifestantes nas ruas de Túnis. Apesar de não ser a autora da canção, ela já a interpretava desde antes da insurreição. Cantora de protesto, Emel Mathlouthi teve suas músicas proibidas na Tunísia em 2008, quando resolveu se mudar para a França. Retornou a seu país em meio à revolta de 2011.

    A Insurreição Tunisina teve início em 17 de dezembro, quando o vendedor ambulante Mohamed Bouazizi ateou fogo ao próprio corpo, num ato de desespero após ter suas mercadorias confiscadas pelo governo. Humilhado pelas autoridades, ele ainda sofreu extorsão ao tentar reaver o que lhe foi tomado ilegalmente (pois não havia proibição do tipo de comércio que ele fazia). Emel Mathlouthi também dedicou uma música a Bouazizi, adaptada de uma canção em tributo a dois anarquistas executados nos Estados Unidos em 1927.

    Vivendo há muito sob um governo autoritário, a população reagiu após a autoimolação de Bouazizi, exigindo a queda do presidente Ben Ali, que foi forçado a deixar o poder e convocar eleições menos de um mês após o início dos protestos.

    Minha palavra é livre

    Eu sou daqueles que são livres e nunca temem
    Eu sou os segredos que nunca morrerão
    Eu sou a voz daqueles que não cederiam
    Eu sou o sentido em meio ao caos

    Eu sou o direito do oprimido
    Que é vendido por esses cachorros (pessoas que são cachorros)
    Que roubam as pessoas do seu pão de cada dia
    E batem com a porta na cara das idéias

    Eu sou aqueles que são livres e nunca temem
    Eu sou os segredos que nunca morrerão
    Eu sou a voz daqueles que não cederiam
    Eu sou livre e minha palavra é livre
    Eu sou livre e minha palavra é livre

    Não se esqueça do preço do pão
    E não se esqueça a causa da nossa miséria
    E não se esqueça de quem nos traiu no momento de necessidade

    Eu sou daqueles que são livres e nunca temem
    Eu sou os segredos que nunca morrerão
    Eu sou a voz daqueles que não cederiam
    Eu sou o segredo da rosa vermelha
    Daquela que colore os anos amados
    Que perfuma os rios enterrados
    E que se espalhou feito fogo
    Convocando os que são livres

    E sou uma estrela brilhando na escuridão
    Eu sou um espinho na garganta do opressor
    Eu sou um vento tocado pelo fogo
    Eu sou a alma daqueles que não estão esquecidos
    Eu sou a voz daqueles que não morreram

    Vamos fazer barro do aço
    E construir com ele um novo amor
    Que se torna passáros
    Que se torna um novo país/lar
    Que se torna vento e chuva

    Eu sou todas as pessoas livres do mundo juntas
    Eu sou como uma bala

    3. El pueblo unido, jamás será vencido (Luta popular e resistência ao golpe no Chile, 1973)

     “O povo unido jamais será vencido”: traduzido para os mais diversos idiomas, este é certamente um dos gritos mais presentes em manifestações no mundo todo. A frase, inspirada no discurso de um líder político colombiano, era um dos lemas da campanha da Unidade Popular no Chile, responsável por levar Salvador Allende ao poder e, com ele, a organização que vinha sendo construída há anos pelo povo chileno. A melodia é do compositor Sergio Ortega Alvarado, enquanto a letra é da banda Quilapayún – importante representante da Nueva Canción Chilena, ao lado de Victor Jara, dentre outros. O grupo também foi o primeiro a gravar a canção, num concerto ao vivo apenas três meses antes do golpe de estado que derrubou Allende.

    O vídeo acima foi gravado no momento de maior radicalização política da história do Chile, quando a organização popular se mostrava poderosa diante de seus inimigos internos e externos. O golpe dado por Augusto Pinochet com apoio aberto das potências capitalistas, especialmente os EUA, massacrou a organização do povo, os músicos da Nueva Canción e todos que estavam no caminho do imperialismo e das classes dominantes chilenas. De experiência democrática socialista, o Chile se tornou o laboratório do neoliberalismo sob um regime que está entre os mais brutais da história do continente.

    Mas a memória daquela experiência não se apagou nem durante nem após a ditadura de Pinochet, o que se percebe inclusive na presença da canção composta e rapidamente sufocada em 1973. É o mesmo grito que se ouviu quando um milhão de chilenos tomaram as ruas há poucos anos. O registro, feito por um brasileiro, é emocionante.

    O povo unido, jamais será vencido!

    De pé, cantar que vamos triunfar.
    Avançam já bandeiras de unidade.
    E você virá marchando junto a mim
    E assim verá seu canto e sua bandeira florescer,
    A luz de um vermelho amanhecer
    Já anuncia a vida que virá.

    De pé, lutar, o povo vai triunfar.
    Será melhor a vida que virá
    Conquistar nossa felicidade
    Em um clamor de mil vozes de combate se levantarão
    Dirão canção de liberdade
    Com decisão a pátria vencerá.

    E agora o povo que se levanta na luta
    Com voz de gigante gritando: Enfrente!
    O povo unido, jamais será vencido!
    O povo unido jamais será vencido!

    A pátria está forjando a unidade
    De norte a sul se mobilizará
    Desde a salina ardente e mineral
    Aos bosques do sul unidos na luta e trabalho
    Irão, a pátria cobrirão,
    Seu passo já anuncia o porvir.

    De pé, cantar o povo vai triunfar
    Milhões já, impõe a verdade
    De aço são ardente batalhão
    Suas mãos vão levando a justiça e a razão
    Mulher, com fogo e com coragem
    Já está aqui junto ao trabalhador.

    4. La Vie S’ecoule La Vie S’enfuit (Insurreição de Paris, 1968)

    Gravada pela primeira vez em 1974, com interpretação de Jacques Marchais, a música foi atribuída a um anarquista anônimo, suposto participante da greve que paralisou a região belga da Valônia em 1961. Mas na verdade a música foi composta por Raoul Vaneigem, um dos principais nomes do movimento situacionista. E mesmo se alguns situacionistas estiveram presentes na greve belga, entre eles o próprio Vaneigem, a composição deve ser mais justamente associada à insurreição parisiense de Maio de 68, na qual os situacionistas tiveram um papel importante.

    La Vie S’ecoule La Vie S’enfuit não foi a única canção a nascer de Maio de 68, tampouco a única escrita pelos situacionistas – poderíamos pensar, por exemplo, na canção do CMDO, o comitê de ocupação da Sorbonne. Mas a canção de Vaneigem exprime, talvez melhor que outras, o “rastro luminoso dos situacionistas” (Kurz) que formou o espírito dessa revolta. Nela encontramos a recusa de toda forma de representação política (partidos, dirigentes, Estado), a valorização da revolta como festa e, sobretudo, a crítica de um mundo no qual a nossa própria vida continua a nos escapar. Na oscilação entre um trabalho que não queremos e o consumo de mercadorias que não precisamos, a nossa “juventude morre de tempo perdido”.

    A vida se esvai, a vida escapa.

    A vida se esvai, a vida escapa
    Os dias desfilam ao passo do tédio
    Partido dos vermelhos, partido dos cinzas
    Nossas revoluções são traídas

    O trabalho mata, o trabalho paga
    O tempo se compra no supermercado
    O tempo pago não volta mais
    A juventude morre de tempo perdido

    Os olhos feitos para o amor de amar
    São o reflexo de um mundo de objetos
    Sem sonho e sem realidade
    Somos condenados às imagens

    Os fuzilados, os famintos
    Vem até nós do fundo do passado
    Nada mudou, mas tudo começa
    E vai amadurecer na violência

    Queimem, covis de padres
    Ninhos de mercadores, de policiais
    No vento que semeia a tempestade
    Colhem-se os dias de festa

    Os fuzis sobre nós dirigidos
    Contra os chefes vão se virar
    Sem mais dirigentes, sem mais Estado
    Para aproveitar de nossos combates

    5. Bella Ciao (Resistência ao fascismo na Itália, décadas de 1930-40)

    A heroica história da resistência ao fascismo na Itália deixou uma belíssima herança musical, a começar por Il Ribelli della Montagna, canção que inspirou nosso Hino à Rua. No caso de Bella Ciao, o canto ganhou o mundo, dos EUA à Palestina, passando pelas recentes manifestações de Istambul.

    A melodia já existia desde pelo menos o final do século XIX, sendo originalmente uma música cantada no trabalho de colheita nos campos da Itália. A letra, por sua vez, foi adaptada para a luta contra a Primeira Guerra Mundial e posteriormente apropriada pela luta antifascista dos anos 1930 e 1940, sendo esta versão a que se tornou mundialmente famosa. Trata-se de um canto que exalta a luta do partigiano – o guerrilheiro da resistência antifascista – e a justiça de sua causa.

    Linda adeus!

    Esta manhã, acordei
    Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
    Esta manhã, acordei
    E encontrei o invasor

    Oh guerrilheiro, me leve embora
    Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
    Oh guerrilheiro, me leve embora
    Pois sinto que vou morrer

    E se morro como guerrilheiro
    Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
    E se morro como guerrilheiro
    Você deve me enterrar

    Enterrar lá em cima, na montanha
    Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
    Enterrar lá em cima na montanha
    Embaixo da sombra de uma bela flor

    E as pessoas que passarão
    Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
    E as pessoas que passarão
    E dirão: que bela flor

    É esta a flor do guerrilheiro
    Linda adeus, linda adeus, linda adeus, adeus, adeus
    É esta a flor do guerrilheiro
    Morto pela liberdade

    6. A las barricadas (Resistência armada ao fascismo na Espanha, 1936-1939)

    A letra de A las barricadas foi publicada em 1933 na revista anarquista Tierra y Libertad. O texto foi escrito por Valeriano Orobón Fernández, sobre a ária da Varsoviana, canção entoada pelo movimento operário polonês no fim do século XIX, e apropriada mais tarde pelos revolucionários russos em 1905 e em 1917. Orobón Fernandez foi teórico e militante anarcossindicalista, e morreu durante a Guerra Civil Espanhola. Ele era um dentre os cerca de dois milhões de filiados da Confederação Nacional do Trabalho (CNT-AIT), a maior organização anarquista da Espanha.

    A revolução social espanhola foi amplamente libertária, a autogestão se impôs nas zonas urbanas e a coletivização nos campos – sobretudo nas regiões de maior presença dos sindicatos anarquistas, como a Catalunha. Mas as “negras tormentas agitavam os ares”, e o golpe militar de Franco lançou a Espanha numa sangrenta guerra civil. A las barricadas é um chamado ao combate contra o fascismo, e se tornou um hino da luta contra as tropas golpistas. O chamado foi, aliás, atendido por revolucionários de todo o mundo, reunidos nas Brigadas Internacionais. Mas, infelizmente, isso não foi o suficiente para superar o exército de Franco, que contou com o apoio das potências capitalistas, notadamente da Alemanha nazista e da Itália fascista. A derrota dos republicanos se deveu também às cisões internas na esquerda. A ascensão dos comunistas aliados a Moscou (e, portanto, a Stalin) se fez à custa do enfraquecimento das vertentes libertárias (como a CNT-AIT) e não alinhadas (como o POUM), debilitando fortemente o lado revolucionário.

    Às barricadas

    Negras tempestades agitam os ares
    nuvens escuras nos impedem de ver,
    ainda que nos espere a dor e a morte,
    contra o inimigo nos chama o dever.

    O bem mais precioso é a liberdade
    Há que defendê-la com fé e coragem
    Levanta a bandeira revolucionária
    Que do triunfo sem cessar nos leva a emancipação*

    Em pé povo obreiro à batalha!
    Há que derrotar a reação!
    Às barricadas! Às barricadas!
    Pelo triunfo da Confederação

    * Trecho adaptado a partir de outra versão da letra, dado que a original não tem correspondente em português

    7. La Cucaracha (Revolução Mexicana, 1910)

    http://www.youtube.com/watch?v=B_27Hi1In6o

    Nem todos sabem, mas La Cucaracha, música mundialmente famosa e apropriada para os fins mais diversos, é antes de tudo uma canção revolucionária. Mais precisamente, uma canção bem-humorada para uma revolução com aroma de marijuana. Não se sabe precisar sua origem, mas a melodia parece remeter ao cancioneiro medieval espanhol. Contudo, foi a partir da Revolução Mexicana, iniciada em 1910, que ela se tornou um grande sucesso.

    La Cucaracha não tem uma letra definida, intercalando-se o refrão e versos os mais variados, que se adaptam a temas e contextos e podem ser improvisados. O próprio nome, “a barata”, poderia ter sentidos diversos – era uma gíria para a maconha consumida massivamente no México, era o apelido do carro usado pelo revolucionário Francisco Villa, era um nome usado para definir a própria Revolução que, como uma barata em fuga, corria em direções imprevisíveis.

    No decorrer da Revolução, muitos versos foram feitos satirizando diversos personagens e situações. Incluímos um deles, que faz referência a Carranza, liderança revolucionária liberal contestada e combatida pelas armas por setores indígenas e populares; e a Francisco Villa (também conhecido como Pancho Villa), que ao lado de Emiliano Zapata foi o personagem mais famoso do lado popular da Revolução. Com bom humor, os rebeldes cantavam que usariam os fartos bigodes de Carranza para decorar o sombrero de Villa.

    A Barata

    [refrão]
    A barata, a barata
    Já não pode caminhar
    Porque não tem, porque lhe falta
    Marijuana pra fumar

    [um dos versos do contexto da Revolução]
    Com a barba de Carranza
    Eu vou fazer uma fita
    Pra colocá-la no chapéu
    Do senhor Francisco Villa

    8. La Semaine sanglante (Comuna de Paris, 1871)

    Jean-Baptiste Clément foi um dos insurretos da Comuna de Paris e compôs duas músicas que são associadas a essa revolta: Le temps des cerises e La semaine sanglante. A primeira, mais famosa, é na verdade uma canção de amor, composta alguns anos antes, e ulteriormente dedicada a uma enfermeira assassinada na repressão à Comuna. A segunda foi composta durante a chamada “semana sangrenta” e representa a repressão violenta ao movimento, o massacre dos insurretos pelas tropas do exército francês, que deixou mais de 20 mil mortos. O próprio Clément foi condenado à morte, mas conseguiu escapar e passou dez anos na clandestinidade. Mais a tarde ele contaria: “Eu ainda estava em Paris quando fiz essa canção. (…) Do local onde me haviam abrigado (…) ouvia todas as noites tiros de fuzil, prisões, gritos de mulheres e crianças. Era a reação vitoriosa que continuava sua obra de extermínio”.

    Se a cidade de Paris pôde ser chamada de a “capital do século XIX” (Benjamin), isso não se deve apenas à sua importância cultural. Paris foi também a capital das revoluções. Entre 1789 e 1968, ela foi a cidade “de um povo que por dez vezes enchera suas ruas de barricadas e pusera em fuga seus reis” (Debord). A mais radical dessas revoluções foi sem dúvida a Comuna de Paris, a única que não se deixou trair, que não foi apropriada pelas classes dominantes, que não deu lugar a um novo governo autoritário. E por isso ela enfrentou também a repressão mais violenta de todas. A música de Clément nos conta essa repressão, mas não deixa de afirmar a necessidade da revolta. Da Comuna resta ainda a vontade da revanche, e a promessa de que “os maus dias acabarão”.

    A semana sangrenta

    Além de moscas e policiais
    Não se veem pelos caminhos
    Mais que velhos tristes em lágrimas
    Viúvas e órfãos
    Paris transpira miséria
    Mesmo os felizes tremem
    A moda está no conselho de guerra
    E os pavimentos estão ensanguentados

    Sim, mas…
    Nada está decidido
    Esses dias ruins acabarão
    E cuidado com a revanche
    Quando todos os pobres se engajarem

    Batem, acorrentam e fuzilam
    Todos aqueles que pegam ao acaso
    A mãe ao lado de sua filha
    A criança nos braços do velho
    Os castigos da bandeira vermelha
    São substituídos pelo terror
    De todos os crápulas
    Serventes de reis e imperadores

    Eis-nos rendidos aos jesuítas
    Aos Mac Mahon aos Dupanloup
    Vai chover água benta
    Os ofertórios vão encher de dinheiro
    A partir de amanhã em júbilo
    E a igreja de São Eustáquio e a Ópera
    Vão concorrer mais uma vez
    E as prisões de trabalho forçado ficarão cheias

    Amanhã as Manons, as Lorettes
    E as damas dos belos subúrbios
    Colocarão em suas lapelas
    Fuzis e tambores
    Todos vestirão o tricolor
    A moda do dia e as fitas
    Enquanto o herói Pandore
    Fará fuzilar nossos filhos

    Amanhã os policiais
    Florescerão sobre as calçadas
    Orgulhosos de seus serviços
    E a pistola a tiracolo
    Sem pão, sem trabalho, sem armas
    Nós seremos governados
    Por moscas e policiais
    Tiranos e padres

    O povo na coleira da miséria
    Será ele sempre esmagado?
    Até quando os homens de guerra
    Vão ter a dianteira?
    Até quando a Santa Camarilha
    Nos tomará por gado ruim?
    Até quando enfim a República
    Da justiça e do trabalho?

    9. The Smashing of the Van (Resistència irlandesa à dominação inglesa, 1867)

    Elaborada em meio a uma das muitas ondas de rebeldia irlandesa contra a dominação inglesa, The smashing of the van narra a história de três jovens condenados à morte após resgatarem duas lideranças presas. O ataque a um comboio de transporte de detentos ocorreu em setembro de 1867 e resultou na morte de um policial inglês. Segundo a defesa dos irlandeses, a morte foi acidental, fruto da tentativa de arrombar a fechadura do veículo a tiros. Condenados à forca, os três rebeldes ficaram conhecidos como os mártires de Manchester – cidade onde ocorreu a ação.

    A canção recebeu outra versão quando a história do resgate de presos e da repressão se repetiu, no começo do século XX, com membros do Exército Republicano Irlandês (IRA) e se tornou um dos principais hinos da luta contra o domínio inglês. Disponibilizamos aqui a versão da banda folk The Wolfe Tones, mas ela também foi gravada pelo grupo Chumbawamba. The smashing of the van conjuga elementos da religiosidade e do nacionalismo popular da Irlanda com um apelo de caráter universal – o da legitimidade da resistência à tirania por via da ação direta.

    A destruição do camburão*

    Prestem atenção bravos irlandeses e ouçam um tempinho
    Vou lhes cantar os louvores aos filhos da Ilha da Erin
    Daqueles heróis corajosos que correram voluntariamente
    Para libertar dois trevos irlandeses de um camburão Inglês

    Meu rapazes pela liberdade, vamos todos com a mão no coração.
    Que o Senhor tenha misericórdia dos garotos que ajudaram a destruir o camburão

    Em 18 de Setembro, era um ano terrível
    Quando a dor e a emoção correram por toda Lancashire
    Em uma reunião dos garotos irlandeses cada homem se ofereceu
    Para libertar os prisioneiros irlandeses do camburão

    Em uma manhã em Manchester aqueles heróis concordaram
    Seus líderes, Kelly e Deasy, deveriam ter sua liberdade
    Brindaram à Irlanda e logo fizeram o plano
    Encontrar os prisioneiros na estrada, tomar e destruir o camburão

    Com destemida coragem aqueles heróis foram e logo o camburão parou
    Eles tiraram os guardas de trás e da frente e então quebram em cima
    Mas ao estourar a tranca, eles sem querer mataram um homem
    Então três homens deverão morrer na forca por destruir o camburão

    Então agora amáveis amigos vou concluir, eu acho que seria certo
    Que todos os Irlandeses sinceros se unissem
    Juntos devemos nos compadecer, amigos, e fazer o melhor que pudermos
    Para manter as lembranças sempre verdes dos garotos que destruíram o camburão

    * Traduzimos como “camburão” para não perder o sentido de que se tratava de um veículo para transporte de prisioneiros

    10 – The Triumph of General Ludd (Luddismo, 1812)

    Clique na imagem para ouvir a canção
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    Esta canção é encontrada com algumas variações, sendo provavelmente composta no auge da rebeldia dos ludditas, no início da década de 1810. Trabalhadores têxteis que se voltavam contra a maquinaria moderna e a alienação do trabalho, os ludditas invadiam as fábricas com os rostos cobertos e no escuro da noite, destruindo e sabotando as novas máquinas. Muitos dos textos que deixaram (como petições ao parlamento e ameaças a industriais caso não se livrassem dos equipamentos) são assinados por Ned Ludd (ou General Ludd). Personagem que se situa entre o mito e a história, Ludd era o novo Robin Hood dos trabalhadores ingleses. A reação do Estado ao luddismo foi de uma violência atroz, incluindo a aprovação da pena de morte para o crime de destruição de máquinas.

    A versão que indicamos é a do álbum English Rebel Songs 1381–1984 da banda Chumbawamba. Para quem quiser conhecer as tradições musicais rebeldes da Inglaterra, recomendamos o álbum como um todo, que inclui outra canção desta lista – The smashing of the van.

    O Triunfo do General Ludd

    Sem mais cantorias de suas velhas rimas sobre o velho Robin Hood
    Suas proezas eu pouco admiro
    Eu vou cantar as conquistas do General Ludd
    Agora, o herói de Nottingham Shire
    Esses motores de dano foram sentenciados à morte
    Por unanimidade de votos do sindicato
    E Ludd que não pode desafiar a decisão
    Foi feito o grande carrasco
    Quer guardado por soldados ao longo da rodovia
    Ou protegido de perto num quarto
    Ele os faz estremecer de noite e de dia
    E nada pode suavizar sua destruição
    E todo o time de humildes não deve mais ser oprimido
    E Ludd deve embainhar sua espada conquistadora
    E seja sua reivindicação prontamente atendida com reparação
    Que a paz deve ser rapidamente restaurada
    Deixe o sábio e o grande prestar sua ajuda e aconselhar
    Nunca antes a sua ajuda retirar
    Até que o trabalho árduo ao preço antigo
    Esteja estabelecido por costume e lei.

  • Every routine has its violence

    Work’s routine is alienation

    Worker’s routine is work

    Bosses’ routine is exploitation

    At home the routine is to wake up early

    On the streets, the routine is… fear.

     

    Massacre is the routine of prisons

    The routine of the State is the exception

    Punishment is the routine of quarters

    The routine of the businessman… is the cartel.

     

    Shouting is a brave routine

    Silence is a convenient routine

    To all those whose routine is oppression

    Whether in uniform or in cassock

     

    Protesting is the routine of the decent

    People who face genocide

    To the Indians genocide is routine

    In the favelas obituaries are routine

    In the palaces something else is routine

     

    Fiscal evasion is routine for the wealthy

    Capital has the routine of disdain

    The routine of those who say sustainable

    Is to turn the Indians’ knowledge into profit

     

    The routine of the police is vengeance

    Struggle is the routine of changes

    Media’s routine is cynicism

    A playboy’s routine… is hygienism

     

    Violence is routine for workers

    Violence is routine for prisoners

    Violence is routine when it’s convenient

    Violence is the routine of disdain

    Violence is routine for the military man

    Cartel is the violence of businessmen

     

    It’s not about braking bank agencies

    All routine has its violence

     

     

     

  • Toute routine a de la violence

    L’aliénation est la routine du travail

    Le travail est la routine du salarié

    Exploiter est la routine du patron

    Chez nous la routine est se réveiller tôt

    Dans les rues, la routine… c’est la peur

     

    Le massacre est la routine de la prison

    La routine de l’État est l’exception

    Le châtiment est la routine de la caserne

    La routine des entreprises… est le cartel.

     

    Crier est la routine qui fait du bien

    Le silence est la routine qui convient

    À ceux qui font de l’oppression une routine

    En uniforme ou en soutane, peu importe

     

    Protester est la routine des braves

    Des gens qui affrontent le génocide

    Pour l’indigène la routine est la tuerie

    La routine aux favelas est l’obituaire

    La routine aux palais… c’est le contraire

     

    L’évasion fiscale est la routine des friqués

    Le capital a la routine du mépris

    La routine de ceux qui disent « durable »

    Est faire le savoir indigène… vendable

     

    La routine de la police est la vengeance

    La lutte est la routine du changement

    La routine des médias est le cynisme

    La routine des play-boys… est l’hygiénisme

     

    La violence est la routine du salarié

    La violence est la routine des prisons

    La violence est la routine qui convient

    La violence est la routine du mépris

    La violence est la routine de la caserne

    La violence est la routine du cartel

     

    Il ne s’agit pas de casser une banque

    Toute routine est violente

  • Toda rutina tiene su violencia

    La alienación es la rutina del trabajo

    El trabajo es la rutina del peón

    Explotar es la rutina del patrón

    En casa la rutina es despertar temprano

    En las calles, la rutina… es el miedo

     

    La masacre es la rutina de la cárcel

    La rutina del Estado es la excepción

    El castigo es la rutina del cuartel

    La rutina del empresario…. es el cartel

     

    El grito es la rutina que hace bien

    El silencio es la rutina que conviene

    A quien hace de la opresión una rutina

    No importa si de uniforme … o de hábito

     

    El manifiesto es la rutina del decente

    De la gente que enfrenta el genocidio

    Para el indio la rutina es el exterminio

    La rutina de los barrios bajos es el obituario

    La rutina del palacio… es lo contrario

     

    El dinero negro es la rutina de quien tiene

    La rutina del capital es el desdén

    La rutina de quien dice que es sustentable

    Es tornar el saber indígena…. cosa rentable

     

    La rutina de la policía es la venganza

    La lucha es la rutina de la mudanza

    La rutina de la prensa es el cinismo

    La rutina del rico…. es el higienista

     

    La violencia es la rutina del peón

    La violencia es la rutina de la cárcel

    La violencia es la rutina que conviene

    La violencia es la rutina del desdén

    La violencia es la rutina del cuartel

    La violencia del empresario es el cartel

     

    No si trata de quebrar una agencia

    Toda rutina tiene su violencia

  • Toda rotina tem sua violência: poema

    A alienação é a rotina do trabalho

    O trabalho é a rotina do peão

    Explorar é a rotina do patrão

    Em casa a rotina é acordar cedo

    Nas ruas, a rotina… é o medo

     

    O massacre é a rotina da prisão

    A rotina do Estado é a exceção

    O castigo é a rotina do quartel

    A rotina do empresário… é o cartel

     

    O grito é a rotina que faz bem

    O silêncio é a rotina que convém

    A quem faz da opressão uma rotina

    Não importa se de farda… ou de batina

     

    O protesto é a rotina do decente

    Da gente que enfrenta o genocídio

    Pro índio a rotina é a chacina

    A rotina da favela é o obituário

    A rotina do palácio… é o contrário

     

    Sonegar é a rotina de quem tem

    O capital tem a rotina do desdém

    A rotina de quem diz que é sustentável

    É tornar saber indígena… coisa rentável

     

    A rotina da polícia é a vingança

    A luta é a rotina da mudança

    A rotina da mídia é o cinismo

    A rotina do playboy… é o higienismo

     

    A violência é a rotina do peão

    A violência é a rotina da prisão

    A violência é a rotina que convém

    A violência é a rotina do desdém

    A violência é a rotina do quartel

    A violência do empresário é o cartel

     

    Não se trata de quebrar uma agência

    Toda rotina tem sua violência

     

    Baderna Midiática

  • Hino à Rua – Letra completa

    Ela é mais que o asfalto onde eu piso
    Ela é o caminho que nos leva à liberdade
    Quando os povos oprimidos a conquistam
    É a parte mais bonita da cidade
    É ela quem escuta os nossos gritos
    O riso, o choro, o lamento de dor
    As bombas, disparos, os golpes brutais
    De quem pratica a guerra e fala em paz

    [Refrão]
    Ela é dos cantos, das batucadas
    É o povo unido quem a detém
    É das bandeiras, das barricadas
    Ela é de todos porque é de ninguém
    Não é dos chefes, nem dos patrões
    Não é uma posse, não é um bem
    Nem dos Estados, nem das nações
    Ela é de todos porque é de ninguém

    Rua. Segundo lar
    Primeiro campo de futebol

    Te querem apenas caminho
    pra quem te depreda com fumaça preta

    Te querem assunto de urbanistas
    engenheiros
    criminologistas

    Eu te quero assunto de poetas
    De amantes
    e de povos rebelados

    Te quero
    dos que te construíram e que hoje não te podem desfrutar
    Porque foram descartados, porque foram despejados

    Toda ocupação que resiste no centro da cidade
    tem um pouco de quilombo

    Ameaça ao latifúndio urbano
    Monocultura cinza movida a petróleo e suor
    O suor de quem vem nos trens lotados

    Todo busão que vem cheio das quebradas, que vem cheio de catracas
    tem um pouco de navio negreiro
    Transporte desumano de carne humana
    Pra ser moída e desossada no trabalho

    Rua, você é de todos
    Que fora do trabalho são suspeitos
    De roubar, de depredar, de discordar
    Ou de não contribuir pro crescimento do Produto Interno Bruto

    Quem veste um capuz e extermina na favela é um pouco capitão-do-mato

    Rua
    Te quero das mulheres ensinadas desde cedo que só podem brincar dentro de casa
    porque a rua é perigosa, porque a rua é violenta
    porque a rua é dos meninos que não sabem respeitar

    Rua eu te conheço, quem te faz uma ameaça às meninas e mulheres
    É a mesma opressão que torna as casas inseguras
    Mais que as ruas

    A rua é de todos os amores
    É daqueles que tiveram que ocupa-la
    pelo direito de existir

    Todo discurso moralista que se opõe à igualdade
    Que se opõe à autonomia sobre o corpo
    É um pouco tribunal da Inquisição

    A rua não comporta privilégios
    Não tem dono nem tem preço

    É como o vento, o sol, a chuva
    o calor, as nuvens, cores
    minha alegria e minhas dores

    Por isso hoje eu vim pra rua

    13 de junho de 2013, noite fria
    Ocupamos a rua para devolver o que é dela de direito
    O lugar da assembleia mais legítima

    Na televisão 5 mil vândalos sem causa interrompiam o trânsito

    Nas ruas
    15, 20 ou 30 mil lutavam por uma vida sem catracas

    Nos chamavam “loucos” como chamavam os balaios que encaravam o poder de peito aberto
    em um país construído sobre corpos, assentado sobre o sangue
    Dos explorados

    Nos chamavam “criminosos violentos” como chamam violento ao rio que tudo arrasta
    Mas não as margens que o oprimem

    Criminosos também eram chamados os luditas
    panteras negras, zapatistas, feministas
    milicianos da Espanha, guerrilheiros da América Latina

    insurretos de Istambul, do Cairo e de Atenas
    de Buenos Aires, de Paris, de Cochabamba
    de Pequim, de Porto Príncipe, de Gaza
    de Londres, de Soweto, de Lisboa

    Trabalhadores anarquistas da Itália ou de São Paulo
    quilombolas da Jamaica ou da Bahia
    rebeldes e poetas de todas as periferias

    Loucos, criminosos, estudantes
    Nos querem dentro de hospícios, de cadeias, de escolas
    Longe das ruas

    Querem as grades, os muros, as cercas, as catracas
    Uma cidade em que circulam carros, mas onde as pessoas
    São confinadas

    Jornalistas, doutores, políticos não podem entender
    Que democracia é muito mais que apertar um botão de vez em quando

    Que estamos dispostos a fazer a nossa história mesmo nas piores condições
    Que não temos ilusões, nem vivemos fantasias
    Somos aqueles que se movem
    E por isso sentimos o peso das correntes que nos prendem

    Eles podem mas não querem entender
    Que já sabemos que o Estado e o capital são gêmeos siameses
    Vivem brigando, mas partilham o mesmo sangue e o mesmo coração
    Nasceram juntos e juntos vão morrer pelas mãos dos explorados

    Que já sabemos que o estado de exceção em que vivemos
    É na verdade regra geral
    Que essa paz que oferecem não é nada além de medo

    Que passado este medo não haverá quem defenda suas mansões
    E não vai faltar quem abra as portas pelo lado de dentro

    Que em tempo de desordem sangrenta e confusão organizada
    nada nos parece natural
    Nada nos parece impossível de mudar

    Que agora as mentiras da TV são motivos de piada
    Que o rei está nu e sua foto tá nas redes sociais

    Que foi nos organizando que nós desorganizamos
    E que é desorganizando
    que vamos nos organizar

    Nada do que venha a acontecer vai tirar de nós o sentimento
    de ter tomado o céu de assalto
    de ter presenciado quando a vida surgiu de uma nuvem de gás lacrimogêneo

    Arrancamos a política das malhas do mundo profano

    Nossas palavras dedicamos a
    Ademir, André, Carlos Eduardo
    Cleonice, Douglas, Eraldo
    Fabrício, Igor, Jonatha
    José Everton, Lucas, Luiz
    Marcos, Renato, Roberto, Valdinete

    E a todas as vítimas anônimas da violência do Estado
    em sua defesa feroz do capital

    Na rua nenhum monumento é inocente
    Nela os que tombaram ressurgem pra lutar ao nosso lado

    Os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer
    Combatemos para que não morram a morte do esquecimento
    Combatemos para impedir o inimigo de vencer